Após 35 anos, disco perdido de Dizzy Gillespie é revelado

Álbum do monstro do jazz gravado em SP, no Estúdio Eldorado, em 1974 com o Trio Mocotó, é achado na Suíça

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

28 de maio de 2009 | 09h56

Letra profética de Gordurinha e Jackson do Pandeiro, Chiclete com Banana, já advertia: "Só ponho bebop no meu samba quando o Tio Sam pegar no tamborim/quando ele pegar no pandeiro e no zabumba/quando ele entender que o samba não é rumba."

 

Veja também:

Ouça faixas do disco inédito e especial

Em 1974, o trompetista Dizzy Gillespie, um dos monstros sagrados do bebop, já tinha pegado no pandeiro e estava bochechudo de saber que o samba não tem nada a ver com a rumba. Já tinha ido a Cuba, feito batucada no Brasil e realizado fusões fantásticas. Foi então que ele retornou ao Brasil, em agosto daquele ano, disposto a inovações. Recrutou o Trio Mocotó (grupo que lançou o samba-rock ao lado de Jorge Ben) para gravar um disco que juntasse jazz e samba.

Durante 8 horas, no Estúdio Eldorado, sala de 8 canais em São Paulo pertencente ao Grupo Estado, Dizzy gravou com sua banda brasileira - Nereu Gargalo, João Parahyba e Fritz Escovão, do Trio Mocotó, à frente. O plano era lançar um disco em janeiro do ano seguinte.

"Dizzy chegou depois do almoço, por volta das 3 da tarde, e deu um chá de cadeira em todo mundo. Ficou uma hora fazendo meditação, deitado no chão do estúdio", conta hoje o percussionista João Parahyba. Esta semana, 35 anos depois, o percussionista (que tinha 24 anos na época) teve dificuldade para reconhecer a si mesmo nas fotos que registraram o encontro, feitas pelo fotógrafo Osvaldo Jurno, do Estado.

O resultado daquelas sessões nunca ficou conhecido. Dizzy foi embora levando a master do disco debaixo do braço e nunca o lançou. Chegou a fazer discos híbridos de jazz e música brasileira mais adiante, mas não se teve mais notícia daquela master. Até o ano passado. Um produtor suíço, Jacques Muyal, da LaserSwing Productions, achou a famigerada master de "sambabop".

Mas Muyal tinha um problema: não havia nenhuma informação técnica no disco sobre as circunstâncias da gravação e a banda que acompanhava o mito do trompete. Procurou os brasileiros que poderiam tê-las. E foi aí que a música de Dizzy e do Trio Mocotó voltou a dar as caras.

"Irei ao Rio no mês de julho e deverei ir a São Paulo para concretizar o lançamento do disco", disse o produtor Muyal, por e-mail, à reportagem. "Dizzy Gillespie foi um grande amigo meu". O resultado daquela aventura sonora, como o leitor descobrirá, seria revolucionário.

Tudo o que sabemos sobre:
Dizzy Gillespie

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.