Bruno dos Santos
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Após 18 meses, maestro Isaac Karabtchevsky retorna aos palcos

Maestro conduz concertos no Rio e em São Paulo e, em suas palavras, 'volta a viver'

João Luiz Sampaio, Especial para o Estadão

10 de setembro de 2021 | 05h00

Na noite de hoje, o maestro Isaac Karabtchevsky volta a viver. É assim que ele define, sem meias-palavras, o seu retorno aos palcos, após 18 meses de pandemia. O concerto com a Orquestra Petrobras Sinfônica, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, é um recomeço, primeira parada de uma agenda que já tem novos e importantes compromissos: no fim do mês, o maestro rege a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo na Sala São Paulo; no início de outubro, a Sinfônica Heliópolis, no Auditório Ibirapuera; e, até o ano que vem, vai gravar para o selo Naxos toda a obra para violoncelo de Villa-Lobos, com a Osesp e o violoncelista Antonio Meneses.

“Em meio a tantos infortúnios advindos da pandemia, nenhum é mais terrível do que a incapacidade de se ver, falar, dialogar, trocar emoções. São ambas igualmente insanas, a moléstia e a reclusão. Para nós, músicos da Orquestra Petrobras Sinfônica, este concerto é uma redenção, no sentido literal da palavra”, diz Karabtchevsky ao Estadão.

O maestro comanda o grupo em um repertório que começa com o Concerto para Clarinete de Mozart e continua com a Sinfonia n.º 4 de Schumann. 

“Não poderíamos comemorar melhor essa retomada do que com uma das mais belas representantes do repertório sinfônico, a quarta de Schumann, e o magistral concerto para clarinete de Mozart. O solista é um músico maior, amplo e generoso, o clarinetista Cristiano Alves. Assistir ao concerto, estamos certos disso, será presenciar um ato de amor, tão sofrido pela recente perda de dois de nossos melhores artistas: Gustavo Menezes e Nelson Abramento. Mas eles estarão presentes em espírito e inspiração conosco.” Os dois músicos eram violinistas do grupo e morreram, respectivamente, em agosto e junho deste ano.

Voltar a ensaiar trouxe uma dificuldade, diz Karabtchevsky. “Após o primeiro ensaio minha maior dificuldade tem sido me habituar às máscaras. No início elas inibem, porque invalidam a tão necessária expressão facial na hora de orientar os músicos nos rubatos e no fraseado, por exemplo. Mas, aos poucos, vai se estabelecendo uma nova forma de comunicação entre nós, pois recorremos ao olhar. E a visão pode revelar a essência.”

“Fomos atingidos”. Aos 86 anos, Karabtchevsky viveu o isolamento social no interior do Rio de Janeiro. Não ficou parado. Deu, pela internet, aulas individuais e cursos abertos sobre regência e sobre o repertório sinfônico. E acredita que há algo simbólico no desafio que as orquestras enfrentaram para retornar aos palcos, com uma série de restrições sanitárias, como limitação no número de músicos no palco ou a diminuição da capacidade dos teatros. A Sala Cecília Meireles, por exemplo, trabalha atualmente com 30% de sua capacidade nos concertos presenciais, que retornaram neste ano – a apresentação faz parte da Série Orquestras da sala carioca.

“Tenho pensado muito na forma como as orquestras em todo o mundo têm contornado o problema do distanciamento social. Tudo evoca uma deliberação consciente da maior importância: reconhecer que, sim, fomos atingidos!”, diz o maestro. “Mas fica claro também que nada poderá tolher nossa capacidade de nos reorganizarmos, de mostrarmos a todos que podemos, apesar de tudo, continuar nosso trajeto.”

Isso, naturalmente, fez com que o repertório das apresentações fosse repensado, com concertos mais curtos, de cerca de uma hora de duração, sem intervalo. É o que tem acontecido na Sala São Paulo, por exemplo, nos concertos da Osesp, grupo com o qual Karabtchevsky se reencontra no final do mês, nos dias 23, 24 e 25, em apresentações que marcam ainda a volta do violoncelista brasileiro Antonio Meneses, radicado na Suíça, à cidade. 

“Com a Osesp, vou reger a Sinfonia n.º 4 de Tchaikovski ao lado do Concerto n.º 2 para Violoncelo e Orquestra de Villa-Lobos”, ela adianta, contando também sobre o plano de registrar com Meneses toda a obra para violoncelo do compositor, para lançamento na série Música do Brasil do selo Naxos.

Já no dia 10 de outubro, Karabtchevsky rege a Orquestra Sinfônica Heliópolis, pertencente ao Instituto Baccarelli, do qual é diretor artístico. O grupo tem realizado dois concertos mensais no Auditório Ibirapuera, sempre aos domingos – no próximo dia 12, por exemplo, vai se apresentar ao lado do pianista Fabio Martino e do maestro Edilson Ventureli (com transmissão pela internet, no canal do YouTube do instituto).

Em outubro, porém, o concerto tem significado especial. “A apresentação vai marcar os 25 anos do Instituto Baccarelli. Será uma grande festa em que estarão irmanados todos os artistas que contribuíram para o sucesso do projeto”, ele diz. “Heliópolis é, para mim, o símbolo mais eloquente de que a cultura existe.”

Osesp toca Mignone

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo transmite hoje, em sua página no YouTube, a partir das 20 horas, apresentação em que o grupo será regido pelo maestro Neil Thomson e contará com a presença do violonista Fabio Zanon. Grande nome do instrumento na atualidade, ele será o solista no Concerto para Violão e Orquestra de Francisco Mignone, peça que ele também vai gravar com a Osesp para a série Música do Brasil, do selo Naxos. 

 O concerto faz parte da Agenda Tarsila, projeto ligado à Secretaria de Cultura e Economia Criativa para celebrar os 100 anos da Semana de Arte Moderna, em 2022. A apresentação tem ainda a Sinfonia nº 2 de Nielsen. O concerto será repetido presencialmente no sábado, a partir das 16h30.

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