Aos quase 70 anos, Paulinho da Viola conta causos de um passado glorioso

Artista deu depoimento sobre trajetória na última sexta-feira, 27, no Museu da Imagem e do Som

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo,

29 de julho de 2012 | 22h11

 

RIO - Os 70 anos de Paulinho da Viola começaram a ser comemorados no carnaval, com o primeiro desfile do bloco-tributo Timoneiros da Viola. Seguem até novembro, mês em que ele nasceu (dia 12) e no qual cantará no Carnegie Hall (dia 28), em Nova York (no site da casa, os ingressos já estão pela metade).

 

Na sexta-feira, sua vida familiar, a carreira, dos momentos iniciais em que fazer música "era só festa" à profissionalização, as influências, pontos altos e baixos de sua trajetória foram rememorado pelo próprio, com o auxílio de amigos, no depoimento à posteridade dado ao Museu da Imagem e do Som - instituição que recolhe relatos de grandes artistas brasileiros desde 1966.

 

Foram seis horas de papo, do qual participaram cinco entrevistadores: os parceiros Elton Medeiros (Onde a Dor Não Tem Razão, Ame, Pra Fugir da Saudade) e Hermínio Bello de Carvalho (Timoneiro, Sei Lá, Mangueira), Sérgio Cabral (jornalista a quem Paulo César Baptista de Faria deve o apelido, emprestado do sambista Mano Décio da Viola), o também jornalista Ruy Fabiano, um dos irmãos de sua mulher, Lila Rabello, e a presidente do MIS, Rosa Maria Araujo.

 

A procura por senhas para o pequeno auditório, onde couberam cerca de 70 pessoas, foi a maior nos últimos seis anos de depoimentos. O público - fãs felizes por estarem tão perto dele e uns poucos artistas, como Monarco e Teresa Cristina - se surpreendeu com o lado contador de histórias de Paulinho, conhecido somente pelos chegados.

A timidez estava lá, a modéstia, mas ele se soltou ao recordar peripécias da infância ("fui o único menino da rua a ser pego pela radiopatrulha, o maior vexame da minha vida"), e até mesmo o motivo que o fez, em 1977, romper com a Portela, o que sempre preferiu não comentar: tudo se deveu a uma escolha de samba-enredo no esquema "cartas marcadas", seguida de declarações grosseiras por parte da escola, na linha "não precisamos dele".

Paulinho falou da relação com o violão, desde os 12 anos, do papel da batida de João Gilberto, à qual, como toda a sua geração, não ficou imune, dos festivais dos anos 60, do perfeccionismo extremo ("já deixei de cantar uma música por causa de um acorde"), da dificuldade, até hoje, para escrever letra para melodia já pronta ("para o Eduardo Gudin, demorei dez anos para entregar; para o Francis Hime, cinco. Até bilhete é difícil...")

 

"Dá nervoso uma plateia pequena. Com plateia grande parece que não tem ninguém", confessou de cara. Sobre o ofício, disse que não sente falta se fica sem tocar ou cantar, tampouco compor. "Houve períodos em que pegava no violão todos os dias. Não faço mais isso." Deixou claro o peso dos 70 - "o médico disse que preciso fazer musculação para a idade; acho um horror!"

 

Hermínio estava ali para lembrar o fato que mudaria de vez o destino do bancário Paulo César: ele levou o jovem de Botafogo ao Zicartola, à convivência próxima com Zé Kéti, que o estimulou a compor mais e mais.

 

A noção de que viveria daquilo viria só com o sucesso incrível de Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida, em 1970. "Não era tão conhecido e estava na Cinelândia num dia de carnaval quando veio um bloco de milhares de pessoas cantando a música. E eu doido para alguém dizer: ‘Olha ali o compositor!’"

O esperado CD de inéditas (não lança um desde 1997) não deve sair este ano; falta disposição para compor. Mas ele tem dois discos ao vivo gravados no Teatro Fecap em 2006 e em 2010 - só falta uma gravadora lançar.

 

"Gosto de recordar, é uma maneira de sentir", disse, ao fim. Paulinho e Ruy Fabiano negociam com a Cosac Naify uma biografia que conte isso tudo em mais detalhes.

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