Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Aos 80 anos, Zuza Homem de Mello reúne artigos de luxo em ‘Música com Z’

Obra traz entrevista inédita com o baixista Charles Mingus

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

18 Dezembro 2013 | 03h00

A vida de Zuza Homem de Mello voltou em um jazz. Era início de noite, antes do jantar, quando decidiu buscar um disco na estante e selecionar a faixa A Nightingale Sang in Berkeley Square. O homem de 80 anos havia chegado de uma delicada internação no Hospital Sírio Libanês, agora livre de um tumor instalado em seu intestino na calada da noite e pronto para testar o novo coração, recondicionado com dois stents. Quando a voz de Eric Comstock e a guitarra de Randy Napoleon se espalharam pela sala, Zuza sentiu um nó fechando a garganta. Havia ficado tempo demais longe da música e perto da morte, mas agora podia dizer, enfim, que estava irremediavelmente vivo.

Nem um mês depois de retornar para seu apartamento, Zuza finaliza, ao lado da mulher Ercília, um novo projeto editorial que será lançado entre abril e maio de 2014. Um dos homens que mais ouviu e escreveu sobre música no País reuniu boa parte do seu legado no livro Música com Z, que será lançado pela Editora 34 e patrocinado pela empresa CPFL.

 

 

São sete capítulos que separam histórias de canções, reportagens, entrevistas, críticas, textos oficiais feitos para capas de discos e releases de artistas, testemunhos de shows e pequenos perfis de nomes do jazz e da música brasileira que Zuza considera de outro planeta. Experiências vividas entre 1956 e 2013, escritas para várias publicações.

Antes de tudo, porém, José Eduardo Homem de Mello, o Zuza, foi contrabaixista na noite de São Paulo, um detalhe que faria toda a diferença. Saiu do País em 1957 para estudar música primeiro na School of Jazz e, depois, na Julliard School de Nova York. Habitando o ninho das feras até 1959, quando voltaria ao Brasil, sentiria o impacto do jazz em seus anos de ouro e aproveitaria para escrever sobre ele com a vantagem de fazer tudo in loco. Começava a transmutação definitiva do baixista para o crítico e pesquisador.

Uma das reportagens feitas por ele em 1958 narra a construção de um grande centro de artes em uma área correspondente a 13 quarteirões, no início do Central Park, em Manhattan. “Eles estavam erguendo ali o Lincoln Center”, lembra o jornalista, que escreveu à época: “Mas o que é afinal o Lincoln Center? Provavelmente uma obra sem igual no mundo.”

Há entrevistados de um peso descomunal em sua lista, sobretudo para a época, quando poucos correspondentes brasileiros tinham acesso aos tubarões do jazz. Chet Baker, Joe Pass, Alberta Hunter e Sony Rollins sentaram-se para responder às suas perguntas. Uma entrevista inédita com o baixista Charles Mingus, morto em 1979, aparece 55 anos depois de ter sido gravada para seu Programa do Zuza, que ele apresentava de segunda à sexta, na Rádio Jovem Pan.

Era maio de 1958 quando Zuza bateu na porta de Mingus, em Nova York. Os prognósticos de que aquilo teria um final feliz eram os mais tenebrosos. Mingus, diziam as ruas, tinha o humor de um javali. Intratável com os desconhecidos, mandaria, se pudesse, todos os brancos para algum lugar bem longe dos Estados Unidos. “Olá, sou o jornalista brasileiro”, chegou o jovem Zuza. “Olá, vamos entrar, fique à vontade”, respondeu o baixista. Em dois segundos de uma doçura inesperada, Mingus derrubou as teses sobre si, ao menos naquele dia. “Eu sabia que ele era mesmo tudo o que diziam, mas comigo não foi. Falamos de Duke Ellington, Charlie Parker, gente de quem ele gostava e de quem não gostava.”

O verão de 1957 no Central Park foi uma estadia nas nuvens. Em apenas duas semanas, Zuza beliscava-se para certificar-se de que não flutuava em um sonho. “Primeiro vi o quarteto do saxofonista Lester Young, o quarteto de Gerry Mulligan, o trio de Erroll Garner, a cantora Billie Holiday e o sexteto de George Shearing. Nessa tarde, vi a cantora Billie Holiday pela primeira vez, uma das mais importantes de toda a história do jazz, sendo equiparada a Ma Raney e a Bessie Smith”, escreveu para o jornal Folha da Noite.

Em um dos capítulos do livro, intitulado Figuraças, ele elenca pessoas, estrelas ou não, que considera únicas por suas personalidades não só artísticas. Um deles é o produtor Buck Ram, criador do grupo The Platters, vendedor de mais de 53 milhões de álbuns. Outro é um vendedor de discos pelo correio, um holandês chamado Dick Bakker. “Ele só vendia álbuns que não existiam nas lojas, com etiquetas estranhas. Fui visitá-lo uma vez.” E ainda o compositor, jornalista, radialista e produtor de discos Denis Brean, que teve canções gravadas por Francisco Alves e Cyro Monteiro na era do rádio. “Foi ele quem deu força para as primeiras pinceladas de música norte-americana na música brasileira. Mas fazia isso para valorizar a brasileira, brincando com os americanos, como em Boogie Woogie na Favela (gravada por Cyro Monteiro). Chiclete com Banana, por exemplo, veio bem depois disso.”

Se um pé de Zuza caminhava pelas calçadas uniformes de Nova York, o outro atolava no barro da fazenda de seu pai em Itatinga, no interior de São Paulo. O fato de passar quatro meses por ano no campo evitou que a arrogância do afortunado engolisse a percepção do sertanejo. Zuza falava de Duke Ellington e Tonico e Tinoco com a mesma vibração, dando-lhes a mesma profundidade. Afinal, quando menos esperasse, qualquer um deles poderia, quem sabe, salvar sua vida.

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