Aos 70 anos, Edu Lobo ganha "biografia artística"

Em entrevista ao 'Estado', cantor e compositor diz ter feito um pacto com a música; agenda está cheia para 2014

Entrevista com

Edu Lobo

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2014 | 02h00

RIO - Poderia ter sido uma crítica elogiosa no New York Times, a vitória de Ponteio no Festival da Canção ou a execução de uma de suas músicas pelo ídolo Gil Evans, nos Estados Unidos. Poderia ser a glória dos elogios a seus musicais ou, se preferisse, o orgulho pela criação de Beatriz. Poderia ser pela vitória que bem escolhesse, mas os pés de Edu Lobo nunca subiram tantos palmos do chão como no dia em que Vinicius de Moraes falou como falam os amigos: “E aí, Edu? Tem algum sambinha novo para eu fazer uma letra?”.

Edu Lobo vive seu 70.º ano produzindo e visitando o passado. Vai a ele sobretudo na biografia São Bonitas as Canções, escrita por Eric Nepomuceno, que será lançada na Flip, no dia 1.º de agosto. Uma “biografia artística”, como diz, que só permite a entrada em questões íntimas quando se refere à dolorosa ausência e, mais tarde, ao traumático reencontro com o pai, o jornalista Fernando Lobo.

Mesmo evitando a fama, você deve ter sido muito procurado por ela, sobretudo em 1965, depois que Elis Regina venceu o Festival Internacional da Canção com a sua Arrastão. Jovem, atraente, os produtores não quiseram fazer de você um galã?

Sim, me procuraram algumas vezes.

E o que o segurou para não cair em tentação?

A música. Eu não estava aqui para ficar rico, não era o meu objetivo. Olha, eu não sou inimigo das pessoas que levam a vida assim, cada um faz o que quiser. Eu faço exatamente o que eu quero o tempo todo. Vou dar um exemplo que parece mentira, mas é a mais absoluta verdade. Depois da vitória de Ponteio (no festival de 1967) foi me dando uma depressão, um desgosto tão grande por ter entrado nessa... Na verdade, eu achava esse negócio de festival... Depois da vitória de Ponteio, um francês, dono de boate, me fez um convite para eu fazer um show em uma cidade próxima a Paris. Meu cachê era zero, mas eu fui feliz da vida. 

As gerações que não viveram os festivais aprenderam a vê-los como o charme da grande era da música brasileira. Não era isso?

Para mim, não. Claro que na hora era emocionante, mas eram vitórias que não valiam nada. Muitas pessoas que ganharam festivais não andaram para frente com suas carreiras. O importante é o seu trabalho. Fiquei seriamente triste de ter entrado e ter ganho. Música não é uma corrida de cavalo, entendeu? É impossível comparar Ponteio com O Cantador, que eu acho a canção mais bonita daquele ano. Ela e Eu e a Brisa, de Johnny Alf, eram as mais belas, e não ganharam nada. E vale lembrar do Sabiá, do Tom Jobim (no festival de 1968). Uma música de primeiríssima categoria que foi vaiada.

Como Tom ficou depois da vaia?

Mal, sentido, ofendido. Poxa, ele tinha feito um disco com o Frank Sinatra! E não foi ele quem foi atrás. Eu me lembro. Tom estava no Bar Veloso, em Ipanema, quando um garçom o chamou: ‘‘Seu Tom, telefonema internacional”. “É mesmo? Quem é?” “É o senhor Frank Sinatra.” Ele pensou que fosse mentira e mandou o garçom ir se danar. O garçom voltou, explicou a situação e ele foi atender. E o Sinatra disse: “Conheço a sua música e não vejo ninguém fazendo o que você faz. Vamos gravar um disco?”.

A MPB viveu mesmo um racha quando chegou a Tropicália, de Gil e Caetano?

Eles quiseram fazer o racha. Mas, o que é a Tropicália, você consegue definir?

Seria a união da música brasileira com o rock, em linhas gerais. Luiz Gonzaga com Beatles.

Isso, Beatles. Eu nunca me interessei, nunca me preocupei. Não era o que eu queria. Nesta época, eu estava fascinado pela música que vinha de Minas Gerais. Milton Nascimento, Toninho Horta, Ronaldo Bastos. Mas as pessoas se esquecem deles quando fazem uma linha do tempo da música brasileira. Eu não gostava da música de poucos acordes. Para mim, quanto mais harmonia, ritmo e melodia, melhor.

Fica mais fácil compor aos 70 anos? Afinal, você deve sentir que já garantiu um lugar na história?

Não. Hoje é muito mais difícil. O nível de exigência fica uma coisa fora do comum. Fico censurando cada frase, sinto que está tudo comum demais. Você trabalha com um inimigo dentro de você. Mas é esse cara que me obriga a fazer tudo cada vez melhor.

A relação difícil com seu pai, Fernando Lobo, é a única questão íntima que permite ser narrada no livro. Por quê?

Eu achei que valia a pena, isso faz parte da minha vida, poderia ter me afetado ainda mais. A relação com meu pai não foi normal pelo seguinte: durante muitos anos, ninguém me disse nada sobre ele. Um dia, eu estava mexendo na biblioteca da minha mãe, puxei um livro e caiu uma foto. Vi minha mãe vestida de noiva com um cara que eu não conhecia. Minha avó estava em casa e eu perguntei: “Vó, o que é isso?”. Eu era pequeno, 9, 10 anos, mas não era idiota. Vi que ela ficou transtornada, mas foi rápida no gatinho: “Meu filho, isso é festa de São João”. Claro que não era, só poderia ser meu pai. Quando eu tentava colocar o assunto, ele era abafado, ninguém falava. Minha mãe tinha nove irmãos no Recife e nunca nenhum deles se sentou comigo para contar a verdade.

Como foi o primeiro encontro com seu pai?

Minha mãe me levou para um passeio sem dizer nada. A gente estava andando, cruzando a Avenida Rio Branco. Fazia calor e ela usava luvas, as mulheres usavam luvas. Fomos andando pela Praça Mauá até que eu vi um sujeito vindo em nossa direção. Quando ele chegou perto, ela olhou para mim e falou: ‘‘Este aí é o teu pai” (pausa). Bom, passaram-se anos, saímos juntos uma vez, mas não foi nada bom.

Por quê?

Eu me lembro que ele fez uma pergunta, se eu gostava de desenhar. Eu falei que gostava de ver desenhos, mas que não tinha nenhum talento especial para isso. E então ele disse: ‘‘Que engraçado, a sua irmã desenha muito bem”. E eu: “Quem?”. Eu também não sabia que tinha irmã! Nem ela sabia que tinha irmão. 

Vocês recuperaram o tempo perdido?

Acho que esse tempo perdido fica perdido mesmo. Não volta. A gente começou a se reencontrar quando eu já tinha meus 17 anos. De certa forma, fui responsável por ele voltar para minha mãe. Eles, que se separaram quando eu não tinha nem 1 ano de idade, se casaram de novo quando eu tinha uns 17. Essas histórias todas eu só soube bem depois. Os dois já morreram.

Mas ainda é doloroso?

Não é doloroso, mas sabe quando piorou? Quando nasceu minha primeira filha, a Mari. Foi doído pensar em como uma pessoa consegue desaparecer de um filho. A coisa mais impossível do mundo é eu deixar de ver meus filhos.

A música veio preencher um vazio em você?

A música veio porque tinha que vir. Veio em uma festa, onde conheci Vinicius. Ele me viu tocando, olhou para mim e perguntou se eu tinha algum samba para ele fazer a letra. E eu respondi (respirando fundo): “Puxa Vinicius, claro que tenho”.

CD, DVD e musical em um ano cheio

A biografia São Bonitas as Canções (Edições de Janeiro) escrita pelo jornalista Eric Nepomuceno e com prefácio de Zuza Homem de Mello, é apenas uma das frentes que envolvem o nome de Edu Lobo em suas celebrações de 70 anos. 

Em CD e DVD, produzido pela Biscoito Fino e pela Samba Filmes, ele mostra o resultado das gravações ao vivo, em 29 de agosto de 2013, no Theatro Municipal do Rio. Com direção de Hugo Sukman, o projeto Edu 70 anos distribuiu as principais criações de Edu para as interpretações dos convidados Bena Lobo, Chico Buarque, Maria Bethânia e Monica Salmaso. 

Entre as músicas selecionadas, aparecem Chegança, Cirandeiro, Pra Dizer Adeus, Vento Bravo, Ave Rara, No Cordão da Saideira, Ponteio, Noite de Verão e A História de Lily Braun

O musical O Grande Circo Místico, criado originalmente em 1983 para o Balé Teatro Guaíra, também é visto com cuidado pelo compositor, que criou a trilha em parceria com Chico Buarque. A estreia em São Paulo será no dia 7 de agosto, no Teatro NET, depois de uma temporada no Rio. 

Edu Lobo viu a montagem e comentou: “Eu teria pequenos reparos a fazer, detalhes mesmo”. Ele diz ainda que o brasileiro está “começando a entender o que é um musical”. “Já passei por situações em musicais em que um cara da plateia grita para tocarem Ponteio, algo que não tinha nada a ver com o repertório.” 

Edu fará uma participação na Flip no dia 1º de agosto, ao lado de Cacá Diegues, em uma mesa chamada 2xBrasil. A biografia terá um lançamento também no Rio, no dia 19 de agosto, na livraria Argumento, no bairro do Leblon. 

Antes disso, também no Rio, dia 7 de agosto, às 20 horas, ocorrerá no POP Rio, em Botafogo, o encontro batizado O Som e a Estrada de Edu Lobo, um bate-papo do compositor com a jornalista e escritora Regina Zappa. / J. MARIA 

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