Ao violão, a tradição musical da Venezuela

Venezuelano da cidade de Bolívar, o compositor Antonio Lauro (1917-1986) conseguiu colocar dentro de um violão uma nada desprezível parcela do peculiar universo sonoro de seu país. Isso fica bastante claro à audição de um disco da etiqueta Naxos, intitulado Venezuelan Waltzes for Guitar, no qual o bom violonista Adam Holzman executa algumas das peças mais representativas desse autor.Filho de um barbeiro que cantava e tocava violão, Antonio Lauro perdeu o pai ainda menino. Foi então levado à capital, Caracas, e, por revelar dotes musicais precocemente, matricularam-no na Academia de Música e Declamação. Ali, ele fez seus estudos acadêmicos em composição, violino e piano. Mas, ao ouvir em um recital, em 1932, o legendário guitarrista paraguaio Agustín Barrios, resolveu, a partir daí, dedicar-se exclusivamente a esse instrumento.De 1933 em diante, Antonio Lauro estudou o repertório tradicional do violão com Raúl Borges (1888-1967), o qual teria posteriormente como alunos Rodrigo Riera, José Rafael Cisneros e Alirio Díaz. Este último se encarregaria de difundir a produção de Antonio Lauro pelo mundo todo. Amor à pátria - Como vários outros compositores de sua geração, Antonio Lauro se tornou um nacionalista apaixonado, determinado a resgatar e a glorificar a herança musical de sua terra. Um dos aspectos da música venezuelana que sempre o atraiu bastante foi o da valsa característica do século 19.Baseou-se nela e em suas variantes - além de ritmos de dança como joropo e gaita - para elaborar peças, muitas das quais se encontram no repertório dos grandes violonistas contemporâneos. Durante o início do século 19, com Liszt e Chopin, o nacionalismo musical revelou ser uma arte e uma arma revolucionária. À medida em que as várias gerações de compositores nacionalistas foram depois surgindo, essa estética foi, aos poucos, perdendo o seu caráter combativo e inovador. Continuando a existir no século 20, o nacionalismo musical se tornou, via de regra, acadêmico, salvo exceções extraordinárias como as de Bártok, Stravinsky e Villa-Lobos.Antonio Lauro sempre foi um artista apegado às formas tradicionais e, nessa medida, ele pode ser visto como um artista acadêmico. Também por ter-se ligado quase que exclusivamente ao violão, instrumento que se impôs no plano da música de concerto através de um repertório bem conformista, ele se mostrou um conservador. Mas as peças que ele compôs para a guitarra, em geral curtas, possuem um sabor delicioso e uma naturalidade que logo faz pensar na espontaneidade da música popular.Seis por derecho, El Marabino, Vals Criollo, El Negrito e Madrugada, dentre tantas outras, são delícias que enredam o ouvido à uma primeira audição. Na sua requintada simplicidade, concretizam miniaturas repletas de um lirismo que a música da Modernidade, em geral, abandonou por considerar "passadista". As 27 peças reunidas no disco de Adam Holzman, dentre as quais se destacam a Suite venezolana, os Quatro Valses venezolanos, o Triptico e as Variaciones sobre una canción infantil venezolana, são coisas muito gostosas de ouvir. E o intérprete, até então desconhecido para nós, deixa-se contagiar pelo ar de conversa ao pé do ouvido dessa música que, em certos momentos, faz lembrar as telas "ingênuas" do Douanier Rousseau.

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