Librado Romero/The New York Times
Librado Romero/The New York Times

Ao se despedir em álbum, Leonard Cohen não mostra o medo da morte, mas, sim, alguns arrependimentos

Último disco, 'You Want it Darker', faz reflexões sobre a morte

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2016 | 20h03

Leonard Cohen sempre esteve diante do abismo. Frente a frente com a escuridão infinita de um buraco do qual não se conhece a profundidade. A cada novo disco, era como estar ao lado do músico canadense. De mãos dadas, em um mergulho cego. Jamais era possível prever como a experiência chegaria ao fim - muito menos quais seriam as feridas abertas pelo caminho. 

Seus três primeiros discos, Songs of Leonard Cohen (1967), Songs from a Room (1969) e Songs of Love and Hate (1971), fundamentaram aquilo que Cohen mostraria, às vezes com mais intensidade, às vezes menos, no restante da sua carreira de quase 50 anos. 

Liricamente, era um contador de histórias, tramas e pequenos momentos preciosos nos quais as músicas ganham movimento, vida, diante dos olhos de seus ouvintes. O detalhismo e o tino pela narrativa já escancarado na carreira literária completavam a fragilidade especial de uma voz de quem nunca foi, de fato, um exímio cantor.

As palavras, às vezes sussurradas, noutras, gritadas, seguem, uma a uma, como um frame pronto para contar sua história. Songs of Love and Hate, escancarava a maturidade de um artista, embora em seu terceiro disco, já com 37 anos. O frescor da música na vida dele e a motivação pela experimentação encontravam um homem já quebrado pela vida, com erros e acertos acumulados. Com seus ressentimentos e amores. Não é por acaso o título do trabalho. Amor e ódio, tão díspares, embora intensos, puxam o ouvinte pelo braço. Transformam-nos em um cabo de guerra indelicado no qual, a cada nova canção, pendemos para as lágrimas ou para o prazer.

Hallelujah talvez seja a canção mais famosa de Cohen, com seus contrastes e interpretações. Não é o mais puro Cohen ali, contudo. É melhor ouvir Avalanche, que abre Songs of Love and Hate, ou a arrasadora Famous Blue Raincoat (talvez uma das mais dolorosas músicas que Cohen, ou qualquer outro, já tenha feito). 

No último mergulho com Cohen, damos de encontro com a morte. "Veja o quanto sombrio eu posso chegar se quiser", parece desafiar Cohen no título. Não há medo do fim ali. Homem de fé, ele aceitou que a hora havia chegado. Seus últimos versos cantam um arrependimento por um amor acabado, de String Reprise / Treaty. “Gostaria que houvesse um acordo entre o seu amor e o meu”, canta ele. Cohen se foi. E nos deixou sozinhos, diante de novos abismos e amores mal resolvidos.

'Hallelujah', a mais icônica canção, não a melhor

Leonard Cohen não sabia o que queria para Hallelujah, justamente aquela que se tornaria a sua canção mais famosa - e desculpem-me Suzanne ou Bird on the Wire, mas o impacto de Hallelujah na cultura pop até hoje atingiu um nível que nenhuma outra foi capaz.

A versão de Cohen no disco Various Positions, de 1984, não é sequer a mais conhecida. Ao longo dos anos, o músico canadense mudou a ordem das estrofes, criou outras, desistiu de algumas que lhe incomodavam. Quando John Cale, ex-Velvet Underground, sugeriu de cantar Hallelujah em um show de tributo a Cohen durante os anos 1990, recebeu do escritório do cantor um calhamaço de páginas com todas as tentativas de Cohen de finalizar a canção. Cale organizou os diferentes fluxos de pensamento e inclusive ajudou a popularizar a canção em uma versão de, acredite, Shrek, a animação do ogro verde que fez sucesso durante os anos 2000. 

O sombrio de Halleluja foi destilado por Jeff Buckley, jovem músico que morreu cedo, aos 30, e apenas um disco lançado, Grace, de 1994. Buckley jamais se tornou grande, Grace também não foi notado quando saiu, mas a fama do músico atormentado de voz sofrida se espalhou bastante por um período pré-internet. No universo alternativo, consumidor dessas obscuridades, a versão de Buckley para a canção - linda, por sinal, passou a ser definitiva. 

Séries de televisão - principalmente aquelas com tramas médicas - gostaram da carga dramática que a faixa apresenta. Premiações e filmes embarcaram na dicotomia entre desespero e satisfação que a canção apresenta. Competidores de realities shows musicais na TV vinham nos gracejos vocais da canção sua chance de bilhar. 

De tão onipresente no universo pop, Cohen pediu um tempo, numa tentativa de salvar uma relação já desgastada. “É uma boa música”, disse ele, em 2009, ao Guardian. “Mas acho que ela está tocando demais.”

 

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