JF Diorio/AE
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Ao se auto-parodiar, o Rush constrói o próprio mito

Rush toca o álbum Moving Pictures na íntegra durante apresentação no Estádio do Morumbi, em São Paulo

Diogo Salles,

09 de outubro de 2010 | 05h03

De volta ao Brasil depois de oito anos, o trio canadense trouxe a turnê conceitual Time Machine que, como o nome já entrega, é um presente para os fãs que acompanham a banda desde o início. Num estádio cheio (mas não lotado), era fácil perceber como o Rush atravessou gerações sem sobressaltos. O público era majoritariamente de meia idade, mas era possível ver muitos adolescentes e até pré-adolescentes. O palco gigantesco trazia a pirotecnia habitual, com telões de alta definição, câmeras acrobáticas e lasers. Já o cenário fazia um contraponto à toda a parafernália, decorado com jukeboxes e com labaredas escondidas atrás de sucatas que sugeriam uma locomotiva.

 

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Antes de a banda entrar em ação, um esquete de humor é apresentado no telão, onde os três membros da banda interpretam figuras pitorescas e fazem uma paródia do clássico The Spirit of Radio. É a deixa para começar o show em alta voltagem. Com tantos outros clássicos para distribuir, eles aproveitam para trazer músicas menos óbvias ao setlist, como Presto, Marathon e Subdivisions (o hino dos geeks). Mesclando com o repertório mais recente — e apresentando duas novas músicas, que farão parte do próximo álbum Clockwork Angels, prometido para 2011 —, o clima aos poucos vai ficando morno. É a deixa para Geddy Lee anunciar o intervalo, argumentando que eles já são velhos e precisam descansar um pouco.

  

A segunda parte do show é o momento mais esperado: o álbum Moving Pictures, de 1981, é trazido de volta e tocado na íntegra. Tom Sawyer é o pontapé inicial para uma nova fileira de clássicos. Na instrumental YYZ, o público segue a tradição e contarola as passagens como um grito de torcida, arrancando sorrisos dos membros da banda. A sequência final é uma volta ainda mais longínqua ao tempo. Já no bis, eles retornam aos anos 70 com mais duas surpresas, ao criar uma introdução new wave para La Villa Strangiato e uma introdução reggae para Working Man.

 

O Rush é daquelas bandas difíceis de explicar. O showbizz nunca deu a menor bola e, verdade seja dita, nenhum deles apresenta uma estampa de causar suspiros no sexo feminino. Mesmo assim, sua base de fãs é impressionante e a devoção dedicada à banda beira a histeria. Mas seu público tem outras demandas. Não quer caras e bocas, não quer jogar o jogo de cena das bandas pop. Seus fãs querem só idealizar o mito, querem apreciar o virtuosismo do trio canadense, querem a execução perfeita das músicas, querem solos heróicos.

Por isso a crítica nunca os deixou em paz, sempre os tratando como pretensiosos, perfeccionistas ou simplesmente chatos. Neil Peart carrega até hoje o fardo de ser uma lenda viva no rock, sendo considerado uma figura sobre-humana pelos fãs mais radicais. Ao jogar a baqueta para cima e não conseguir pegá-la de volta, ele mostra que é humano, demasiado humano. E ele não teve vergonha alguma em pegar uma nova baqueta (que estava de prontidão ao seu lado) para continuar tocando.

Fim do show, mais um esquete cômico que brinca com a idolatria dos fãs. Dessa vez, eles contam com o reforço dos dois atores que interpretam fãs de Rush no filme Eu Te Amo, Cara e invadem o backstage em busca de autógrafos. O resultado, porém, é ambíguo. Ao tentar mostrar que são “gente como a gente” e não se leva tão a sério assim, o Rush acaba sendo ainda mais idolatrado.

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