Serjão Carvalho/Estadão
Serjão Carvalho/Estadão

Ao quebrar muro entre eletrônico e rock, Lollapalooza cresce sem estar pronto para ser grande

O festival, encerrado neste domingo, 26, ainda conseguiu dar espaço a pesos pesados

Guilherme Sobota, João Paulo Carvalho, Júlio Maria, Murilo Busolin e Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

26 Março 2017 | 22h26

Empilhar pessoas em frente a palcos não é sinônimo de sucesso. Um festival precisa de, além de identidade e boas atrações, garantir a segurança e o conforto de quem pagou caro para estar lá. O Lollapalooza vive um dilema a partir de 2017. Ajudado pelo “efeito Metallica” no sábado, ele atingiu um resultado heróico de público, com 190 mil pessoas nos dois dias, e se tornou um gigante. É a melhor marca de suas seis edições. Seu feito inquestionável, de crescer em um ano de retração econômica e desemprego cobrando até R$ 920 de entrada, pode fazer seu mentor Perry Farrell sorrir ou coçar a cabeça. O Lollapalooza não está pronto para ser tão grande.

A geografia irregular do autódromo de Interlagos não se torna um desafio apenas para a movimentação das ondas migratórias que se descolam entre os shows. Quem não conseguia chegar 15 minutos antes de cada apresentação começar corria o risco de não assisti-la por falta de ângulo de visão, como aconteceu no momento do Metallica. Com torres de caixas avançadas na plateia e bases para técnicos de luz e som espalhadas pela pista, os pontos cegos se multiplicam. As filas da cerveja chegavam a ter 40 minutos de espera e a recarga da pulseira de créditos também pedia paciência.

Há um preço a ser pago quando se tem uma superpotência como Metallica. Ele pode desestabilizar o ecossistema de um festival que tenta distribuir atrações no mesmo horário, equilibrando a lotação de cada espaço. Enquanto The Weeknd cantava para uma multidão na noite de domingo, a cantora Melanie Martinez amargava uma plateia esvaziada no palco vizinho. Uma coisa é a capacidade total do Autódromo de Interlagos. Outra, não medida oficialmente, a de cada palco. Se vai seguir em sua proposta de rockinrização, trazendo head liners de peso cada vez maior, a produção precisa repensar seus espaços e a forma como trata os fãs que o sustentam de pé.

Outro feito de Farrell é a capacidade de seu festival em furar a bolha. Os ídolos invisíveis criados à base de compartilhamentos nas redes, divorciados da mídia tradicional, chegam ao Lollapalooza como anônimos ao público médio e partem para seus países depois de uma demonstração de força absurda em frente aos súditos. A sueca Tove Lo, no sábado, tocou para garotos espremidos que cantavam suas músicas em frente ao palco às lágrimas. A dinamarquesa MØ, no domingo, parecia Madonna em início de carreira. A ovação para recebê-la comprovava o quão ágil e silenciosa tem operado a nova ordem da indústria pop.

As velhas discussões sobre a divisão entre eletrônico e orgânico, rock e house, riff e bit, real e programado soaram, durante dois dias, lamentações à beira de um muro combalido, ajudado a ser desfeito por Duran Duran nos anos 1980 a golpes de Notorious. Músicos como o baterista de MØ, que viajava sobre uma base programada de sintetizador, ou os integrantes lisérgicos do Bob Moses, surgem de um hibridismo de linguagens que desprezam a fidelidade às raízes. Afinal, suas raízes, definitivamente, não são os Rolling Stones.

Com muitos clássicos, a banda inglesa Duran Duran mostrou ser a maior hitmaker do festival até a tarde de domingo. Ao contrário do Metallica, que abusou de músicas novas, a sequência de Hungry Like The Wolf, A View To a Kill e Come Undone foi arrebatadora. A surpresa ficou por conta da performance de Céu, que subiu ao Onix para cantar Ordinary World. Céu, que havia se apresentado no início da tarde, fez um bom dueto com Simon Le Bon. Dias antes, o baixista John Taylor havia revelado que iria procurar a cantora porque era bastante fã de seu trabalho.

O Two Door Cinema Club não precisou se esforçar para levar uma multidão ao Skol. Com canções de ritmos contagiantes, o power trio cantou sucessos de seus discos mais conhecidos, Tourist History (2010) e Beacon (2012). Ainda aproveitou para incluir algumas canções de Gameshow, álbum lançado no fim do ano passado. “Brasil, é bom estar de volta”, disse o vocalista Alex Trimble, que agora adota o visual de cabelos longos.

Já na noite de domingo, no Onix, The Weeknd não precisou de batidas fáceis e versos assobiáveis. Mesmo truncando tudo, ele foi capaz de fazer dançar. Ao contrário de Simon Le Bon, fritou o público no melhor uso da gíria. Ele é o pop dos bons, que rompe barreiras. Até o ano passado, era um cantor com influências de R&B, dono de um pop obscuro, cheio de referências a noitadas pesadas que sempre levavam a uma ressaca moral. Era o bad boy à beira do pop. Fazia dançar, mas não tinha saído da própria bolha.

Os Strokes fecharam a edição de público recorde. Pode ser nostálgico, mas a banda ainda tem o que mostrar. A guitarra ainda precisa distorcida e, às vezes, errada. Os vocais tortos de Julian Casablancas são necessários.

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