Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Ao lado do filho Donatinho, João Donato lança disco pop e com influências eletrônicas

'Sintetizamor' foi produzido apenas com instrumentos analógicos

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2017 | 06h00

RIO DE JANEIRO - João Donato caminha vagarosamente pelos estúdios da gravadora Deck, no Rio Janeiro. Com um brilho no olhar, o mesmo que lembra o de um garoto de 18 anos, o músico fala com orgulho sobre seu novo álbum, Sintetizamor, que foi gravado e produzido em parceria com o filho caçula, o jovem Donatinho. “Isso é fruto do trabalho dele, que se empenhou muito neste projeto”, revela o cantor e compositor.

Aos 82 anos, até mesmo os discos mais emblemáticos e ousados da extensa e brilhante carreira de João Donato, como Donato Elétrico (2016) e Quem É Quem (1973), parecem pouco experimentais diante do recém-lançado trabalho. “A produção foi toda feita com instrumentos analógicos. A ideia era trazer o João Donato para um universo pop, eletrônico e dançante. Eu disse que ele estava proibido de tocar piano acústico neste CD”, brinca Donatinho.

A sonoridade inusitada, a princípio, pode até assustar o ouvinte mais desatento. As músicas de Sintetizamor flertam o tempo todo com o universo dos sintetizadores, dos pianos elétricos e dos instrumentos analógicos vintage. Desta forma, as composições do novo trabalho, gravadas no estúdio Synth Love, no Rio de Janeiro, fazem um mergulho instigante pelo universo dos anos 1980, território dominado com maestria pelo DJ e produtor musical Donatinho. “Este disco é a prova empírica de que o João Donato está cada vez mais jovem. Meu pai é meu grande ídolo, a minha inspiração para muitas coisas na vida. O trabalho saiu na hora certa. Isso mostra que ele é um cara versátil e não de um nicho específico”, complementa Donatinho.

Desde Managarroba (2002), há exatos 15 anos, João Donato não lançava um disco só com canções inéditas e cantadas por ele. Nos últimos anos foram apenas trabalhos instrumentais e que renderam bons frutos ao músico. Em 2016, por exemplo, Donato Elétrico foi indicado ao Grammy Latino na categoria de melhor álbum instrumental. “Acho que ninguém conhecia muito bem essa minha faceta dançante”, brinca Donato, que, numa abafada tarde de quinta-feira, usa uma camiseta preta com um DJ fosforescente que acende e apaga as luzes conforme a intensidade do barulho. “Para fazer as fotos, sugiro que a gente fale bastante. Só assim o DJ vai ficar piscando”, brinca Donatão. “Se este disco tivesse sido feito antes, ele não teria tido um impacto tão grande. Os dois universos, o meu e o dele, entram em intersecção”, complementa Donatinho.

 

Coisa de família. Lei do Amor, primeiro single divulgado no final de maio, já mostrava a força desta combinação tão explosiva. Os versos fáceis e doces comprovam que a simplicidade poética das canções carregam um laço familiar difícil de ser desatado. A música é a única entre as 10 faixas de Sintetizamor que é cantada tanto por João Donato quanto por Donatinho. “Lei do Amor tem uma carga emocional muito grande. Coisa de família mesmo, sabe? A mensagem é simples, direta e objetiva. As pessoas se esqueceram que devemos amar ao próximo”, diz Donatinho, que se emocionou várias vezes ao olhar para o pai para tentar explicar a história da composição da música. “Dividir os microfones com ele é algo que sempre quis fazer. Certas pessoas achavam que isso seria impossível de acontecer”, lembra.

Rogê, Davi Moraes, Domênico Lancellotti e Ronaldo Bastos são alguns dos artistas que estão no disco. A participação da chamada “nova safra musical” dá um aspecto ainda mais jovial para o trabalho de João Donato e Donatinho. “Alguns amigos vieram me contar que Lei do Amor já está sendo tocada em baladas na Europa e em Nova York. Isso é enriquecedor”, complementa Donatinho.

Capa do álbum foi inspirada nos anos 1980

A capa de Sintetizamor segue a linha futurista e a estética dos quadrinhos. É de Donatinho a concepção da arte do álbum, cuja imagem expõe o tecladista e compositor carioca com o pai, pianista e compositor de origem acriana, em ilustração de Allan Jefferson, desenhista da empresa norte-americana Marvel Comics. “Além de toda a parte musical, a questão artística, gráfica e fotográfica também foi muito bem pensada. O projeto em si inclui não só as 10 faixas do disco, mas também esse futuro meio retrô, que dá uma ideia de anos 1980, sabe?”, diz Donatinho.

Fã confesso da década de 1980, Donatinho conta que sua inspiração veio toda da chamada “década perdida”. “Esse sempre foi meu mundo. Adoro os anos 1980, minhas maiores e mais importantes referências surgiram de lá. Aquela mescla de pop e rock, com uma linha mais dançante e recheada de sintetizadores, sempre mexeu muito comigo”, diz.

Rock in Rio. Aos 82 anos, João Donato vai levar seu piano e seu teclado de volta ao Rock in Rio. Rodeando o músico no Palco Sunset, estarão Mariana Aydar, Emanuelle Araújo, Tiê e Lucy Alves. O quinteto se encontrou pela primeira vez na casa de Donato, na Urca, zona sul do Rio, em março deste ano. “Vou levar o piano e o teclado para o palco e, junto com as meninas, faremos um excelente show, tenho certeza”, garantiu Donato na ocasião.

O repertório da apresentação no festival ainda será definido, mas é certa a presença de canções como Sambou, Sambou, Bananeira, Emoriô e A paz - esta última, feita em parceria com Gilberto Gil, é sua criação mais conhecida desde quando retornou ao Brasil de forma definitiva, já na década de 1970.

Será, portanto, um tributo à obra seminal e sem par de Donato, precursor da bossa nova e um dos fundadores da moderna música brasileira, nos anos 1950/1960.

Em 2015, João Donato tocou na Rock Street com integrantes da banda paulistana Bixiga 70, apresentando músicas do CD Donato Elétrico, que seria lançado no ano seguinte. Na edição de 2011, apresentou-se com Céu no Sunset com o repertório do disco histórico A Bad Donato, de 1970. A apresentação foi um dos grandes destaques daquela noite. 

 

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