Antony e Cat Power seduzem platéia na estréia do TIM Festival

Pianista faz cover de 'I Will Survive'; Cat Power reclama do som o tempo todo e também reinventa canções

Jotabê Medeiros, do Estadão,

26 Outubro 2007 | 13h16

Como se fosse uma gata em teto de zinco quente, Cat Power anda pelo palco inventando gestos, inventando desconforto acústico, inventando uma dança que conspira contra a música (uma vai para lá, outra vai para cá). Nunca ninguém terá visto alguém saudar a platéia assim, semi-inclinado, com a perna para trás, a cabeça grudada no braço e o braço estendido para cima, fazendo um aceno desajeitado de toureiro.   Veja também: Especial TIM Festival    De sapatos brancos, jeans muito justo e camisa muito larga aberta com camiseta por baixo, ela abriu a noite com Don’t Explain, canção que Billie Holiday imortalizou. Cat Power não parece ser a dona daquela voz imensa que enche o Auditório do Ibirapuera - e ainda assim, Chan Marshall, seu nome real, reclama o tempo todo do som, colocando os ouvidos nas caixas de som de retorno, fazendo as mãos nos ouvidos em concha para escutar a ambiência do som entre o público, apontando o microfone para o técnico invisível e pedindo com o dedo para cima para ele aumentar o som. Um João Gilberto de franja e rabo-de-cavalo (e bonitaça).   Menina inquieta, palhaça, faz micagem enquanto a voz de Zuza Homem de Melo a anuncia nos alto-falantes, fingindo fazer uma dublagem do venerável critico. Sua voz falhava em algum ponto? É possível, mas sua arte de intérprete é muito maior do que qualquer gap. Tomava uns goles de um líquido estranho, apertava a garganta com os dedos em pinça - talvez só a recente passagem de Joanna Newsom pela cidade possa se igualar à experiência de ouvir essa moça inquieta.   Cat Power cantou músicas que são amplamente conhecidas, mas que ninguém reconhece de imediato porque elas as seqüestra para si, como Lost Someone (James Brown), Silver Stallion (Lee Clayton), Ramblin’ Woman (Hank Williams). Ou então, coisas do tempo em que, como ela disse, era apenas uma pirralha, como Lord Help the Poor and Needy, da obscura cantora de blues Jessie Mae Hemphill.   Os músicos vão saindo do palco um a um, primeiro o guitarrista, depois o baixista, depois o tecladista, e finalmente ela se apresenta ("Eu sou Chan") e também sai, e fica só o baterista. Volta imediatamente com a banda (que baterista, esse Jim White, da banda Dirty Three) para dois bis apressados: Lived in Bars e I’ve been Loving You (de Otis Redding). Depois, amassou uma folha de papel com o repertório do seu show e virou de costas, jogando-a para os fãs como um buquê de noiva.   Antony chegou com vontade de bater papo. Depois de uma queda na iluminação de palco, ele retomou a canção que tocava, My Lady Story, do início. "Estou um pouco desorientado. Deve ser por causa de todos esses garotos brasileiros".   Antony fez um longo discurso sobre a sabedoria das mulheres maduras, conclamando todas a um grande golpe de Estado planetário. "Digam para suas mães concorrerem para presidente. Implorem a elas. Não vejo razão para as coisas continuarem assim por mais um século."   "Vamos tomar nosso poder de volta", instou Antony, colocando-se oportunisticamente ao lado das mulheres maduras sábias. Logo a seguir, zombou do próprio delírio: "Onde eu estou? Que música a gente ia tocar?". A seguir, vieram duas covers magníficas: Candy says, (composta por Lou Reed para o Velvet Underground em 1969) e I will Survive (hino gay de Gloria Gaynor). Essas canções nunca mais serão ouvidas da mesma forma depois de reprocessadas pela voz de Antony. "I've come to hate my body/And all that it requires/In this world".   Quando ele cantava I Fell in Love with a Dead Boy, (Você é um garoto ou você é uma garota?"), o baixista ficava na escuridão, em frente ao piano, esperando seus lábios se mexerem para acompanhar nas cordas, como se lesse uma partitura. Derretia até o coração mais pedregoso com as maravilhas melódicas de sua voz em You Are my Sister e Twilight.   Andrógino e desbocado, quase a ponto de parecer "disgusting", como ele mesmo ressaltava, Antony não é aquele astro dócil. Quando os fãs pedem suas canções, ele faz um gesto de enfado. "Oh, esperem um minuto... Grato por conhecerem minhas músicas", ironizou.   Cat Power busca sua singularidade num repertório quase extinto, injetando alguma sujeira no blues, tingindo tudo de soul com sua voz rouca (talvez só Janis Joplin tenha ido tão longe nessa ousadia). Antony cria paisagens sonoras de um território inexistente, cria pinturas, doma silêncios com sua voz de anjo. Ambos são artistas de uma outra dimensão: enquanto eles existirem, haverá esperança para a humanidade.

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