Antonio Nóbrega lidera festival armorialista

Antonio Nóbrega considera que suavida artística teve início em 1972, quando foi convidado porAriano Suassuna a participar da formação do Quinteto Armorial.Na época, era violinista de orquestra sinfônica. Antes disso,havia montado, com as irmãs, conjunto musical - que tocava ecompunha à maneira dos sucessos de época, de bossa nova aRoberto Carlos, de Os Mutantes a Os Incríveis. Nada disso conta. Antonio Nóbrega está comemorando 50anos de vida e 30 de artes. No plural: compositor, cantor, ator,dançarino, instrumentista, professor de cultura brasileira,animador e produtor cultural, criador e diretor de um centromultidisciplinar dedicado à cultura popular brasileira - oTeatro Brincante, com sede na Vila Madalena. Para comemorar as datas redondas, lança novo disco -Lunário Perpétuo -, com show homônimo e série de palestras,exposições, oficinas e outros lançamentos. O evento LunárioPerpétuo ocupa salas diversas do Sesc Pompéia, em São Paulo, desta quinta-feira ao dia 21. Ariano Suassuna vem do Recife para daraula-espetáculo, na sexta-feira, às 18 horas; de sexta a domingo, as récitas do espetáculo de Nóbrega contarão com a participaçãoespecial da cantadora de romances Dona Militana, do Rio Grandedo Norte; na semana que vem, de quinta a domingo, a participaçãoé do rabequeiro Cego Oliveira, pernambucano como o titular. Ariano Suassuna, criador do Movimento Armorial, autor doAuto da Compadecida, aproveita para assistir ao lançamento -também na sexta, também no Sesc Pompéia, a partir das 17 horas,do livro Ariano Suassuna, o Cabreiro Tresmalhado, de MariaAparecida Lopes Nogueira (Editora Palas Athena, 196 págs., R$ 30), análise antropológica de sua obra e, portanto, doarmorialismo, que se funda na idéia da criação de uma linguagemculta especificamente brasileira, derivada das tradiçõesculturais populares. Completam o evento o lançamento do CD Cantares, deDona Militana, uma exposição alusiva aos 30 anos de Nóbrega, comfotos de Candinha Bezerra (do Projeto Nação Potiguar,responsável pela edição do disco de Dona Militana), instalaçãoda figurinista e cenógrafa Eveline Borges, rabecas populares eoutras feitas pelo lutiê Saulo Dantas-Barreto, pinturas deDantas Suassuna, mais palestra da franco-nordestina IdeletteMuzart, autora de estudos sobre o armorialismo, palestra sobrerabeca e violino por Dantas-Barreto. Lunário Perpétuo, no título do disco (e de uma dascanções) é versão abreviada do título de um livro que circulouno Nordeste brasileiro até meados do século passado, Lunário ePrognóstico Perpétuo para Todos os Reinos e Províncias, deautoria do valenciano Jerônimo Cortez, cuja primeira ediçãoremonta aos anos 1750. Traz informações sobre as fases da lua esuas implicações para a agricultura, reproduz conhecimentos deastronomia, sabedorias da medicina popular (como curar picada decobra) e genéricas (como embranquecer o marfim ou evitar oencarquilhamento das folhas de determinada árvore), calendáriode eclipses, mitologia. Da mitologia revelada pelo Lunário utilizaram-se muitoos cantadores ditos "de ciência", das "cantorias de ciência", os alfabetizados, os que, por isso, não limitavam a arte aosfatos cotidianos. Nóbrega, em seu Lunário Perpétuo, dá areceita da festa com "frevos-de-rua endiabrados, sideralmarcha-de-bloco, galope a beira-mar tonhetânico (de Tonheta, seupersonagem-brincante fixo), ponteado para sonora rabeca,abecedário para a Mãe de Deus, jocosa polca brasileira, décimas,sextilhas, carretilhas e muito mais" - e muito, muito mais dasabedoria que um dia tocou o possível violinista clássico e otransformou numa das mais importantes figuras da culturabrasileira contemporânea.

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