Antônio Nóbrega estréia novo espetáculo em SP

Antonio Nóbrega, a cada espetáculo, revela parte de nossa exuberância musical. O Marco do Meio-Dia, seu novo trabalho que estréia na sexta-feira, no Sesc Vila Mariana, é a continuidade dessa intenção - enraizada em sua trajetória - de descobrir, celebrar e produzir cultura popular."No Marco, eu procurei ser mais abrangente nas linguagens", informa Nóbrega. "Abdiquei do lado mais show, para ressaltar componentes importantes na construção da cultura popular, como a dança e o teatro." O espetáculo utiliza ainda recursos audiovisuais. "De forma alguma eu gostaria de partir para uma tendência somente alegórica, afetada, mas, neste caso, outras idéias couberam na concepção deste trabalho", conta. "O uso do vídeo remete ao nosso cinema, linguagem à qual presto também homenagem."Além de reunir mais linguagens do que os anteriores - como Brincante e Pernambuco Falando para o Mundo - O Marco do Meio-Dia é o espetáculo que passeia mais intensamente pela cultura e história de diversas regiões do Brasil, sem restringir-se ao rico universo nordestino.Nóbrega partiu da narrativa dos cantadores de rua para criar o seu marco. Na prosa popular, marco significa a construção da fortaleza do seu criador, em que ele idealiza um mundo protegido. A referência ao meio-dia remete-se aos países abaixo da linha do Equador - que, nessa concepção, são locais prometidos, formado por mestiços -, onde o sol fica mais forte nesse horário.Partindo desse princípio, Nóbrega construiu o seu marco, aliando ao enredo uma visão histórica e menos celebrativa sobre a comemoração de 500 anos de Brasil. Segundo Rosane Almeida, mulher e parceira do compositor nessa produção, é a junção desses dois fundamentos (a idéia de marco para os cantadores e o seu significado de ponto de partida) que originou a proposta de O Marco do Meio-Dia. "A partir disso, o espetáculo mostra o que o povo brasileiro vem construindo nestes 500 anos, que, na verdade, é bem mais do que isso", acredita.Nesse contexto, no qual a intenção também é a de mostrar a história vivida pelo povo, O Marco do Meio-Dia retoma alguns movimentos sociais e seus líderes, como Antônio Conselheiro e Zumbi. "Queremos mostrar por meio das artes a história não-oficial, que é sempre tratada em segundo plano", declara Rosane.Estréia - O novo espetáculo estreou em junho, em Lisboa. Mesmo não finalizado, ele já impressionou. Nóbrega e sua trupe também o apresentaram na França. Além do desafio de estrear fora de casa, ele e Rosane apostaram num elenco inexperiente. "Esse novo trabalho tem uma característica muito mais coletiva do que os anteriores", informa ela.Rosane conta que a participação de seus filhos e sobrinhos deu ao Marco grande frescor, sensação que ela e Nóbrega precisam recuperar. "É muito feliz trabalhar com pessoas jovens, adolescentes que não possuem vícios de linguagens e muito menos preconceito com as novidades", acredita. "Conheci Nóbrega há 20 anos e tinha praticamente a idade dessa garotada; vejo nesses jovens a mesma impressão de deslumbramento com a cultura popular."Por cerca de dois meses, os dois mergulharam com esse elenco, formado por Maria Eugênia Almeida, Pedro Salustiano (filho de Mestre Salu), Luciano e Mariana Fagundes, no interior nordestino. Ali, desenvolveram a dança. "A cultura popular é o nosso alimento, no caso da dança, estamos praticamente reproduzindo essa beleza", diz ela.Um das coreografias é o caboclinho, com origem no Recife, que homenageia os índios. Segundo Rosane, a dança possui movimentos riquíssimos, que ficam restritos a uma comunidade carente. "É arriscado perder essa informação", lamenta. "É uma manifestação que pouca gente tem oportunidade de conhecer." Diferentemente do frevo, o caboclinho possui passos específicos para a figura feminina e masculina, com gestualística muito mais ampla.Em contraponto ao vigor juvenil, Nóbrega mostra a sabedoria do seu velho mestre Ariano Suassuna. O escritor captou a proposta de O Marco em versos. O poema inédito Martelo D´O Marco do Meio-Dia ganhou música de Nóbrega e vai encerrar essa ópera popular. "Eu tinha esse desejo que Ariano escrevesse mas sei quanto é atarefado e não queria sobrecarregá-lo", diz Nóbrega. "Após a volta de Portugal, contei a ele sobre a apresentação e, quando menos esperava, ele me deu esse presente." Dantas Suassuna, artista plástico responsável por toda cenografia e filho de Ariano, foi também um interlocutor especial nesse caso.Além do poema inédito, o espetáculo é recheado de novos textos e letras de Nóbrega e seus parceiros, Wilson Freire e Bráulio Tavares. Oito músicos acompanham o elenco - que tem figurino criado por Eveline Borges.Após as apresentações deste fim de semana, eles seguem, no dia 24, para o Sesc São Carlos; dia 26, Sesc Santos; dia 29, Sesc São José do Rio Preto; e 31, Sesc Araraquara. Nóbrega volta à cidade em setembro, para lançar o registro em CD de O Marco do Meio-Dia, no Tuca.O Marco do Meio-Dia - Sexta e sábado, às 21 horas; e domingo, às 19 horas. De R$ 10,00 a R$ 20,00. Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3147.

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