Ramon Sanahuja/Divulgação
Ramon Sanahuja/Divulgação

Antonio Marcos tem duas caixas com 8 discos lançados em CD

Músico completaria 70 anos de idade em outubro

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

16 Março 2015 | 03h00

Escalar a montanha não era propriamente uma questão; pior era estar lá em cima. Isso porque, uma vez que o topo chegava, a terra tremia e ele despencava pelo mesmo precipício. “Comigo é assim. Quando chego lá, parece que um abismo se abre. Mas estou saindo dessa”, disse Antonio Marcos ao Estado em 1990, dois anos antes da última queda, quando seu fígado, bombardeado por doses de álcool, parou de vez e ele se foi, aos 46 anos.

Antonio Marcos Pensamento da Silva criou-se em uma Jovem Guarda em início de desconstrução. Herdou algo de seu formato, sobretudo dos conceitos de arranjo que marcaram a primeira fase de Roberto Carlos, mas rapidamente criou uma interpretação de música e poética próprias. Ele faria 70 anos no próximo dia 8 de novembro e, nesta semana, proporcionando uma importante reavaliação de um personagem ainda percebido com superficialidades e preconceito, chegam às lojas duas caixas de sua discografia.

Elas compreendem a fase de Antonio Marcos na gravadora RCA, iniciada em 1969 e finalizada em 1976. A primeira traz os discos de 1969 e 1970, os dois primeiros chamados apenas Antonio Marcos e os álbuns 08-11-45 (de 1971) e Sempre (de 1972). A segunda compilação vem com Antonio Marcos (1973), Cicatrizes (1974), Ele... Antonio Marcos (de 1975) e Felicidade (de 1976). Todos esses da segunda fase foram regravados também em espanhol, com lançamentos na Argentina e nos Estados Unidos.

 

Marcelo Froes, pesquisador e proprietário do selo Discobertas, responsável pelos lançamentos, não vê uma injustiça histórica isolada quando pensa em uma possível subvalorização de Antonio Marcos. “A figura do cantor e compositor não engajada no Brasil é muito injustiçada. É só olhar para outros cantores que não tiveram compromisso com a intelligentsia (da MPB). Ele faz parte de uma geração que veio ao mundo a passeio, de uma juventude que queria se divertir.”

Mas havia um peso ali. O Toninho, como era chamado pelos amigos, ganhou logo um outro adjetivo colado ao de romântico: “rebelde”. De poucas e cortantes palavras, alimentava certa prepotência. “Ele angariava antipatias porque dizia ‘eu sou assim mesmo’. Era inteligente, sensível e arrogante”, lembra Odair José.

 

Jerry Adriani, outro contemporâneo jovem guardista, prestou um depoimento para Fróes, falando de suas impressões. “Ele era desse tipo raro de pessoa que a gente encontra uma vez e não esquece mais. Confesso que, na primeira vez que o vi, achei-o com uma cara meio que de marrudo. Ele me olhou meio que de soslaio, sem querer demonstrar que estava me observando. Acho que demorou um pouco para que eu o conhecesse mais intimamente.” Aos poucos, vai se aprofundando no personagem. “O Toninho tinha alma de artista na acepção da palavra e de um legítimo poeta. E tudo, como acontece com os hiper sensíveis, ele procurava ver pelo ângulo de um inveterado romântico, passional, intenso. Basta você conversar com as mulheres que viveram com ele histórias de amor e verificará que nunca era algo raso, superficial.”

A superficialidade pode ter ficado nas análises sobre sua obra. Antonio Marcos escrevia letras e poemas inspirados. “Eu fiz mais de três mil em 15 anos. Vinicius de Moraes curtia e queria fazer o prefácio quando eu lançasse um livro”, disse ele mesmo, em 1987. Erasmo Carlos atesta sua produção com momentos de angústia, escrevendo para Fróes. “Seu lado poeta e músico procurava respostas que, infelizmente, não teve tempo de encontrar.

 

À parte de seu temperamento, sua postura de galã ator de filmes e novelas e seus sérios problemas com o álcool, Antonio Marcos tem um lado sobre o qual poucos se debruçaram. O artista que se ouve agora em retrospecto distante não soa vazio de propostas. Corria em paralelo, e não atrás, de Roberto Carlos, conseguia vender 500 mil cópias de um LP puxado por uma música como O Homem de Nazaré ou 700 mil graças a Como Vai Você, e abriu um leque de parceiros que ia de Dominguinhos e Fagner a Lincoln Olivetti e o irmãos Mario Marcos. Chega a gravar, em 1975, Hino (de Paulo Cesar Pinheiro e Eduardo Gudin) e duas músicas que Roberto preferiu não registrar: Mensagens de um Planeta Perdido (de Taiguara, no disco de 1973) e Sombras Num Quarto de Londres (que está como um dos vários bônus trazidos pelo projeto).

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