FABIO MOTTA/ESTADAO
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Antonio Adolfo faz seu tributo a Wayne Shorter

Pianista brasileiro escala um time de grandes músicos para interpretar temas do saxofonista americano; álbum está entre os dez mais tocados em rádios de jazz dos Estados Unidos

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 03h00

Algo no piano de Antonio Adolfo soa familiar, um calor nas notas que parece carregar o ouvinte a um lugar sempre confortável. Adolfo inclinou-se à música instrumental com o passar dos anos, mas boa parte de sua origem como sideman talvez explique melhor um feeling que o ajuda a encontrar o ponto de equilíbrio entre a energia de quem emite e a de quem recebe, a nota que ele quer tocar e a que o seu ouvinte gostaria de ouvir.

Seu novo álbum é mais uma faceta desse homem que começou tudo ao piano da sala de casa, aos 14 anos, se embrenhou pelos estudos clássicos, ouviu Wayne Shorter aos 16 e degustou todos os discos de jazz que um amigo de escola chamado Claudio Roditi, o mesmo que se tornaria o grande trompetista, colocava para girar depois das aulas. De sua fase de parcerias com Tibério Gaspar, trabalhou em outro registro fazendo o suingue que Wilson Simonal precisava na criação de Sá Marina ou a dramaticidade pop que tornaria Toni Tornado um nome com BR-3.

Se fosse apenas um, Adolfo estaria em maus lençóis assim que esfriasse a água dos festivais, por volta de 1969, ou a estética do samba-jazz, de seu trio 3D, fosse atropelada por eventos juvenis avassaladores, como a Jovem Guarda. Mas Adolfo seguiu em linha reta, tornou-se professor e continuou ouvindo uma gente que sempre esteve dois passos à frente das descobertas. Seu novo disco é uma incursão pela obra do saxofonista Wayne Shorter.

Hybrido – From Rio to Wayne Shorter tem ligações com os anos de formação de sua identidade musical. Segundo publicou a revista norte-americana Jazz Week, ele atingiu os dez primeiros lugares dos álbuns mais executados nas rádios de jazz dos Estados Unidos. É uma sessão de nove temas, todos de Shorter com exceção do último, Afosamba (um samba-afoxé), do próprio pianista. A ficha técnica tem um time da pesada, com músicos como Jorge Helder (baixo), Lula Galvão (guitarra), Rafael Barata (bateria), Jessé Sadoc (trompete) e Serginho Trombone (trombone). O cantor Zé Renato faz uma vocalização na clássica Footprints. “Fiquei tocando primeiro, antes de definir o repertório, por uns três meses. Há temas que não havia interpretado ainda, como E.S.P.”, diz Adolfo.

Sua estratégia pode ser modelo no processo seletivo de um disco de releituras. Como disse, Adolfo apenas toca o que lhe vem à cabeça por meses, sem dirigir o pensamento. É o tocar até sentir que aquele tema não é mais de seu criador, mas de quem está tocando. É quando ele ganha uma segunda vida e passa a ser, agora e mais uma vez, de ninguém. “Eu acredito nisso. Em algumas, chego a alterar mais a parte harmônica. Mas há o contrário também. Afosamba é minha, que acabou saindo como se fosse do Shorter.”

De primeira. A temperatura parece estar sempre em alta nas visitações a Wayne Shorter, mesmo em partes mais reflexivas, como a intro de Deluge. A apropriação da qual Adolfo falava estende-se à banda. Footprints, por mais sedimentada que esteja no livro do jazz, ganha seu frescor na dobra da melodia entre o sopro e a voz de Zé Renato. A guitarra de Lula Galvão que vem no improviso chega com personalidade, entrega a vez para Serginho Trombone, que repassa para o piano de Adolfo, que devolve ao baixo de Helder e que retorna a Zé Renato. Um passeio feito assim uma única vez, sem nada parecido nem antes nem depois. “Fizemos apenas meio ensaio antes de gravar o disco”, conta Adolfo. Uma tática que não deixa saída aos músicos, é leitura de partitura à primeira vista e sangue de improvisador.

É pela linha do jazz livre de Wayne Shorter que Adolfo recostura a própria história. Antes de chegar a Simonal ou sair pela Europa como pianista de Elis Regina, ele respirou o oxigênio altamente contaminado do Beco das Garrafas, o quadrilátero em que se concentravam do violão sambalançante de Jorge Ben ao piano desconcertante de Luiz Eça. A máxima repetida de que a bossa nova surgiria do barro do samba e da medula do jazz é controversa. O próprio jazz já decolava de suas estruturas convencionais para aterrissar em outros planetas. No mesmo ano em que João Gilberto vinha com Chega de Saudade no Brasil, institucionalizando a bossa nova, veja só o que o mundo conhecia: em 17 de agosto, Miles Davis mudaria tudo com Kind of Blue e, em dezembro, John Coltrane lançaria Giant Steps e Dave Brubeck traria o tempo mais improvável de Take Five em Time Out. E como os puristas da bossa nova lidavam com isso no Brasil? “Eles também absorviam essas informações. Tom Jobim, por exemplo, vai começar a jogar a melodia das músicas nas extensões dos acordes, coisas que eram geniais e fora do padrão”. 

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