Mike Orlosky/Divulgação
Mike Orlosky/Divulgação

Antibalas Afrobeat Orchestra faz show em São Paulo

Jordan McLean fala ao 'Estado' sobre o revival da música de Fela Kuti na última década

Roberto Nascimento - O Estado de S.Paulo,

16 de abril de 2012 | 14h24

O affair de universitários brasileiros com o afrobeat tem gerado boa leva de festas, bandas e influências pelo eixo Rio-SP. Um eco esperado, em um País com DNA cultural propício, das cenas que perpetuam a música de Fela Kuti em Nova York e em cidades europeias.

Além de pipocar em trabalhos recentes, como o disco Nó Na Orelha, do elogiado rapper Criolo, a sonoridade do mestre nigeriano inspira bandas como Bixiga 70 e a Abayomy Afrobeat Orquestra a tocarem pela lei de Kuti: longas e hipnóticas jams sobre o característico beat, pontuadas pela polirritmia de guitarras e metais.

Este diálogo se intensifica com a recém-divulgada programação da Virada Cultural paulistana, que trará em maio o lendário baterista de Fela, Tony Allen (em termos técnicos, o criador do afrobeat, pois foi quem inventou o ritmo) e Seun Kuti, filho de Fela, considerado o mais importante conservador da chama rítmica de seu pai, morto em 1997.

Antes disso, o Antibalas Afrobeat Orchestra, talvez o grupo que melhor sintetize a ascensão do afrobeat global nos últimos dez anos, atraca em São Paulo para um show no Cine Joia, nesta quinta-feira. Jordan McLean, trompetista do coletivo, conversou com o Estado sobre a herança de Fela Kuti.

Fela morreu em 97 e logo depois vocês montaram a banda. Qual era a ideia?

Queríamos preservar o legado dele. Havia um disco da Desco, que hoje chama-se Daptone (gravadora de Sharon Jones), chamado The Daktaris. O álbum vendeu bem, mas, na real, não havia banda. Começaram a surgir propostas para tocar ao vivo e a Antibalas, que tinha alguns desses músicos, começou a trabalhar.

E como foi o processo de lapidar a linguagem rítmica até que ficasse semelhante à de Fela?

Tínhamos um baterista que havia tocado com Fela. Além de ótimos percussionistas latinos que compreendiam intuitivamente como o xequeré e outros elementos funcionam na música de Fela. E nosso cantor é nigeriano, o que funcionou bem com a cozinha. O Antibalas só poderia ter acontecido em Nova York.

O afrobeat é inseparável da música religiosa do oeste africano. Como muda a percepção de um ritmo quase sacro através dos anos?

Desenvolvemos uma maneira mais forte de nos relacionar com os elementos mais essenciais da música: o transe rítmico, a harmonia modal de Fela. Estou sempre aprendendo algo novo sobre isso.

É como James Brown. É sempre um momento especial quando você percebe a genialidade com que os elementos rítmicos funcionam dentro do conjunto.

Sim, são elementos simples que nos ajudam a entender o modo em que um indivíduo funciona no contexto de um grupo.

Como você vê esta ascensão global do afrobeat durante a última década?

Há bandas por todos os lados. Em Chicago, Boston e San Francisco. Em Nova York há um punhado delas. Na Europa também, especialmente na França, onde Fela fez muito sucesso. Outro dia, estávamos em Amsterdã e ouvimos uma banda excelente de moleques que tocam afrobeat. Mas não são todas que conseguem capturar o som com propriedade. Muitas pessoas adoram Fela e querem fazer um som igual ao dele. Mas é muito difícil chegar ao nível em que você consegue fazer algo que soe como afrobeat mesmo. Você pode juntar excelentes músicos, mas mesmo assim não quer dizer que eles vão tocar direito.

E quanto da música era ideia de Fela, quanto era ideia dos músicos que tocavam com ele?

Já conversei bastante com o baterista dele, o Tony Allen, e a ideia que tenho é que o Fela não dizia o que era para ele fazer. A batida foi invenção do Tony mesmo. Todo o restante, os arranjos, as letras – isso era tudo composto pelo Fela. 

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