Ano Tom Zé fecha com álbuns dos anos 70

O cantor e compositor baiano Tom Zé, a partir de 1990, começou a ser redescoberto. Primeiro foi a compilação para o mercado internacional, The Best of Tom Zé - Brazil Classics compiled by David Byrne, disco eleito pela revista norte-americana Rolling Stone como um dos dez melhores da década. Depois, Com Defeito de Fabricação, trabalho responsável por faze-lo renascer também em terras brasileiras. No final do ano passado, a Trama, sua nova gravadora, lançou Imprensa Cantada - Vaia de Bêbado não Vale, compacto com três versões da canção, libelo anti-tropicalista, pró-bossa-nova.Neste ano, no entanto, pode-se dizer, mais que redescoberto, Tom Zé está sendo desnudado. Exposto explicitamente, como na capa de seu disco Todos os Olhos. Primeiro foi Postmodern Platos, álbum de remixes de Com Defeito de Fabricação, depois Tom Zé, primeiro álbum de carreira, relançado pela Sony Music em agosto. No dia 25 próximo chega às lojas do País o novo Jogos de Amar - Faça Você Mesmo (Trama).Overdose? Não pára por aí. Já estão nas lojas os volumes 14 e 15 da série 2 Momentos (Continental), organizada por Charles Gavin, baterista dos Titãs. Neles, quatro LPs gravados pelo compositor de Irará nos anos 70: Se o Caso é Chorar (1972), Todos os Olhos (1973), Estudando o Samba (1975) e Correio da Estação do Brás (1978).Os álbuns foram remasterizados - e bem - a partir das fitas master originais. O trabalho gráfico aparentemente deixa a desejar. Averiguando, não é um primor, nem de todo mau. Traz as capas e encartes originais e informações adicionais. Mas o acabamento é primário. Se isso baratear o preço do produto nas lojas, já é um bom começo. Vale destacar que a transferência de oito canais para sistema digital foi feita por Marcelo Fróes, pesquisador musical que recentemente lançou o livro Jovem Guarda pela editora 34.De todos eles, talvez o mais importante seja Estudando o Samba. Senão pelo conteúdo, por sua importância histórica. Foi este o disco que David Byrne encontrou num sebo, ouviu, e pelo qual se apaixonou. Descontando esse fato, tem muito mais. Diferente de seus companheiros de geração, como Caetano Veloso, que decretou o fim do samba em A Voz do Morto, crítica destrutiva a Voz do Morro, de Zé Keti, Tom Zé foi em busca das raízes do gênero, como outro companheiro de geração, Jards Macalé. Se uniu a Elton Medeiros e compôs Tô e Mãe (Mãe Solteira), que tem os versos "Dorme, dorme/Meu pecado/Minha Culpa/Minha salvação". E ele mesmo admite, hoje em dia, que é apenas um compositor de baião e samba. É também. Pois vai além, ou aquém, como gostaria de relativizar. Vale-se de elementos estranhos a estes dois gêneros para recriá-los. Extrapola os sete sons da escala ocidental, que limitam sua criação, mas agradece a eles por existirem, os sons da escala tonal.Em Se o Caso é Chorar e Todos os Olhos, Tom Zé se aproxima do concretismo dos irmão Campos. Fato que também ocorreu com Walter Franco, Caetano Veloso e tal, na mesma época, início da década de 70. Destaque dos discos: a regravação do clássico A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran. Correio da Estação do Brás, que fecha a obra do compositor nos anos 70, tem também as suas particularidades, como a parceria com o publicitário Washington Olivetto e a parceria com Vicente Barreto.

Agencia Estado,

16 de novembro de 2000 | 22h54

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