ARQUIVO ESTADAO
ARQUIVO ESTADAO

Ano marca o centenário do músico e compositor Abel Ferreira, o chorão de alma melancólica

Artista mineiro deixou um legado de sofisticação, estilo e inovação

Lauro Lisboa Garcia, Especial para O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2015 | 07h00

“O brasileiro quando cai no choro é entusiasmado, quando cai no samba não fica abafado e é um desacato quando chega no salão”, diz um clássico do gênero, de Waldir Azevedo, que ganhou letra de Pereira da Costa. É nas rodas de brasileirinhos entusiasmados que os grandes choros de Abel Ferreira, compositor, arranjador e referência como clarinetista e saxofonista continuam vivos, bem como suas influências. O centenário do nascimento do músico (nascido em 15 de fevereiro de 1915) já vem sendo comemorado há alguns meses, com discretas homenagens, que condiz com a maneira como ele começou na música.

Chorando baixinho ou acompanhando grandes intérpretes de samba e outros gêneros durante várias décadas – como irmãs Aurora e Carmen Miranda, Ademilde Fonseca, Sílvio Caldas, Francisco Alves, Emilinha Borba, Orlando Silva, Marlene, Beth Carvalho e Chico Buarque –, Ferreira, autodidata, deixou um legado precioso de sofisticação, estilo e inovações que começou a ser burilado no início da adolescência, quando começou a tocar clarineta na banda de sua cidade natal, Coromandel, interior de Minas Gerais, aos 12 anos. Os saxofones entraram na bagagem aos 17 anos, quando passou a morar na capital mineira. 

Da banda do coreto às orquestras de baile, Ferreira acumulou uma série de influências e experiências com gente graúda como os mestres Luiz Americano e Pixinguinha, que o incentivou a tocar mais saxofone, e criou conjunto próprio. Foi com o autor de Carinhoso que gravou outro clássico do choro, Ingênuo, em 1958. Como compositor, Ferreira não produziu em larga escala (conta com pouco mais de 50 músicas), mas, em compensação, gravou muitos discos como instrumentista e primou pela qualidade tanto como intérprete de temas alheios, como pela autoria de choros antológicos, como Acariciando (parceria com Lourival Faissal, uma de suas mais bonitas criações), Chorinho do Sovaco de Cobra, Doce Melodia e Levanta Poeira. 

As grandes viagens decolaram a partir de 1952, inicialmente pelo Brasil, quando formou a Escola de Ritmos com Paulo Tapajós. Depois vieram as turnês internacionais com outros artistas, como Trio Yrakitan e Waldir Azevedo nos anos 1950 e 60. Na década seguinte, voltou a se destacar quando gravou com Beth Carvalho no LP Pra Seu Governo, e fez uma série antológica de shows pelo Projeto Pixinguinha ao lado da rainha do choro Ademilde Fonseca (1921-2012), a maior cantora do gênero. Uma dupla imbatível e inigualável.

Nessa época, também lançou discos importantes que o fizeram se tornar mais conhecido pelas novas gerações, como Brasil, Sax e Clarineta (1976), Abel Ferreira e Filhos (1977), ambos pelo fundamental selo Marcus Pereira, e Choro na Praça (1977), uma reunião de feras de diferentes gerações, incluindo Waldir Azevedo, Paulo Moura, Zé da Velha, Copinha e Joel Nascimento, tocando repertório de choro classe A, como não poderia deixar de ser. Outro disco antológico, Chorando Baixinho – Um Encontro Histórico (1979), lançado pelo selo Kuarup, foi o último álbum de sua carreira e também reuniu alguns dos gigantes do choro da época: Joel Nascimento, Arthur Moreira Lima, Copinha, da dupla Zé da Velha e Silvério Pontes, e o conjunto Época de Ouro. 

Herdeiro estilístico de Pixinguinha, Ferreira legou o que se chamou de “escola brasileira de sopro”. Há uma peculiaridade no som de instrumentos como o clarinete, que é o toque de melancolia, e Ferreira, que tinha ouvido absoluto, tornou esse aspecto mais relevante em seu jeito de tocar, marcado por uma grande capacidade de improvisação e pela suavidade, embutida até nas execuções de temas mais intensos. A propósito, um de seus choros mais conhecidos se chama Acariciando. É disso que se trata sua música.

Ouça canções de Abel Ferreira:

Tudo o que sabemos sobre:
Abel Ferreira

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.