Anna Netrebko em cativante apresentação ao vivo

Em suas perambulações pelo mundo, o escritor peruano Mario Vargas Llosa aportou em Salzburgo em agosto passado, bem a tempo de acompanhar a última récita de uma nova montagem de La Traviata, atração do tradicional festival da cidade. A audição transformou-se em um ensaio portentoso, em que ele se rendia à protagonista da montagem, dizendo mesmo que a voz daquela soprano nos ajudava a compreender porque a versão musical de Verdi para A Dama das Camélias era um marco da história cultural do Ocidente. A soprano em questão é Anna Netrebko. Llosa, na verdade, entrou tarde para a lista dos entusiastas desta bela russa que, há dois anos, deixou o anonimato, trazida para o Ocidente pelo maestro Valery Gergiev. Mas esta Traviata é algo de realmente especial. Seus principais trechos estão saindo agora em um CD nacional da Universal. Você não vai encontrar a ópera toda. Mas, pode acreditar, a amostra parece mais do que suficiente. Anna - que, conta, começou como faxineira no Kirov, na Rússia, até ser descoberta enquanto cantarolava e lavava o chão - já havia lançado dois discos preciosos com árias de óperas. O primeiro, regido por Gianandrea Noseda, já era bom. O segundo, então, com Claudio Abbado, melhor ainda. Intensidade, força, paixão, um timbre quente, uma voz que soa verdadeira. Tudo isso ela já deixava transparecer em estúdio. Agora, ao vivo, o resultado é ainda mais cativante. Diz a crítica internacional que Anna é uma excelente atriz. As imagens do espetáculo de Salzburgo chamam mesmo a nossa atenção - de qualquer forma, vamos ter de esperar mais um pouco o lançamento em DVD da produção. Mas a intensidade vocal nos deixa mesmo ansiosos para ver o que se passou naquele palco. O desespero seguido de resignação na cena em que o pai de seu amante pede a ela que o deixe; a humilhação após ser confrontada em público por ele; a solidão no leito de morte; o último lampejo de vida no dueto final com Alfredo. Está tudo no lugar certo, como a gente espera que seja. Mas, ainda assim, tem frescor, parece novo. Toda a edição do disco, da capa ao folheto interno, coloca o foco na soprano, mas a participação do tenor Rolando Villázon como Alfredo é mais do que acessória. Desde agosto, os dois têm viajado o mundo em concertos. Formam o novo casal 20 da ópera. É marketing puro, claro. Mas os dois combinam bem. A voz jovial dele flutua entre cores claras e escuras, lembra um pouco o jovem Plácido Domingo, apaixonado, vibrante. Resta o barítono Thomas Hampson, grande mozartiano, intérprete renomado de canções, como Germont. É um caso curioso. A voz ainda soa jovem, clara demais para o papel do pai de Alfredo. Mas a técnica, a elegância, a excelente forma vocal, o senso de estilo. Ouvi-lo continua sendo uma experiência e tanto.

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