Jennifer Taylor/THE NEW YORK TIMES
Jennifer Taylor/THE NEW YORK TIMES

Anna Caterina Antonacci interpreta canções e árias na Sala São Paulo

Soprano de voz indomável é chamada de 'Sophia Loren da ópera'

João Luiz Sampaio - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

03 Agosto 2015 | 03h00

Um crítico do New York Times, na tentativa de definir a italiana Anna Caterina Antonacci, chamou a soprano recentemente de “Sophia Loren da ópera”. A comparação talvez se explique pelo fato de que ela acabava de estrear uma ópera baseada em livro do escritor Alberto Moravia, La Ciociara, que já havia inspirado um filme de Vittorio De Sica, protagonizado pela atriz italiana. Mas uma coisa é certa: Antonacci tem desafiado qualquer caracterização, com uma carreira que foge do convencional e, por isso mesmo, faz dela uma das vozes mais interessantes do cenário atual.

Ela desembarca esta semana em São Paulo, onde se apresenta nesta segunda e quarta, 5, na Sala São Paulo, pelo Mozarteum, ao lado do pianista Maciej Pikulski. Vai interpretar canções e árias de Debussy, Respighi, Berlioz, De Falla e Bizet, em um programa que atira para vários lados, indo da ópera ao repertório de canções. “É um programa montado à minha semelhança”, ela brinca. “Canto em francês, italiano e também no dialeto veneziano, que é lindo. Não são todas peças conhecidas, mas isso é parte da graça.”

Antonacci começou a carreira destacando-se como intérprete de Rossini e Donizetti. “Mas, por algum motivo, não as óperas mais conhecidas. Surgiam convites para peças raras e eu de alguma forma gostei disso.” Depois, vieram os autores barrocos, Gluck, Haendel, Monteverdi. E, de novo, uma lista de obras pouco executadas. “Eu não sei, talvez seja a isso que chamam de destino”, ela diz, rindo. Parte deste repertório ela registrou no disco Era la Notte, que logo recebeu prêmios e serviu como introdução de seu trabalho mundo afora.

O destino volta à conversa. “Eu percebo que a mudança de ambiente musical foi algo constante em minha trajetória e isso me alimenta. Há 12 anos, por exemplo, algo aconteceu, e foi como uma revelação: eu descobri o repertório francês”, ela conta, seguindo com a recapitulação cronológica de sua carreira. “E esta descoberta fez com que novos e fascinantes horizontes se abrissem à minha frente.”

E o que há na música francesa que a interessa tão particularmente? “É um estilo de canto muito mais refinado e complexo. O repertório francês tem como foco a palavra, a poesia e, curiosamente, nesse sentido, remete ao começo da ópera, às ideias de Monteverdi. Enfim, o horizonte poético da língua francesa permite o estudo profundo do valor da palavra.”

Antonacci gravou recentemente, em DVD, uma versão de referência da ópera Carmen, de Bizet, ao lado do tenor Jonas Kauffman. Mas o autor francês que mais lhe fascina é Berlioz: ela é intérprete renomada de papéis como Cassandra, em Os Troianos, ou Marguerite, em A Danação de Fausto. “Berlioz é uma figura fascinantíssima. Tinha uma paixão carnal pela música e isso me atrai.”

E como foi atuar em La Ciociara (que, em inglês, foi batizada de Two Women). “Fascinante. É uma história que se passa durante a segunda guerra e é interessante cantar uma ópera que trata de um tema tão próximo de nós”, diz. E o futuro? A paixão pelo repertório francês parece que vai durar ainda um bom tempo. E o que mais? “O futuro? O futuro, para mim, será sempre a novidade.”

ANNA CATERINA ANTONACCI

Sala São Paulo. Pça. Julio Prestes, s/nº, tel. 3223-3966.

Segunda e quarta (5). 21 horas. De R$ 80 a R$ 300

 

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