AUGUSTO ALBUQUERQUE
AUGUSTO ALBUQUERQUE

Anitta X Sertanejo: uma mulher contra um 'partido político musical'

Enquanto as esquerdas da América Latina doutrinavam seu campo nos anos de ditadura, o Brasil fazia florescer o primeiro gênero musical da história convertido 100% à idolatria de um único político

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2022 | 07h00

As estratégias não os levam em conta, as pesquisas não aferem seus efeitos reais e os próprios políticos não sabem de seus alcances. Mas são eles, os popstars de massa, os únicos artistas com o poder de trazer aquilo que realmente importa aos candidatos em uma eleição pau a pau: votos, muitos votos. Uma observação rápida mostra duas forças musicais poderosas no Brasil de 2022, bem posicionadas e raras na capacidade de falarem não apenas aos seguidores de Lula e de Bolsonaro, mas, e aí está o pulo do gato, a uma população brutal de fãs que fazem tudo o que o mestre mandar.

Um artista fura bolha é mais do que um artista engajado. É aquele que não fala só às plateias já alinhadas com seus posicionamentos políticos históricos, mas sobretudo a jovens despolitizados que não têm, ou até então não tinham, posicionamento algum. É por isso que, para a esquerda, Chico Buarque, Chico Cesar, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mano Brown e todos os rappers juntos não valem por uma Anitta. Por mais que se pronunciem, invistam em poesia e declarem seus votos em Lula, eles não trarão um eleitor a mais daqueles que, salvo exceção, já iriam votar mesmo nas esquerdas. É a bolha falando para a bolha. Já Anitta, sem ambiente político por, até então, ser apolítica junto a seus mais de 63 milhões de seguidores no Instagram, tornou-se a maior força de Lula. Ela fala e sua plateia a ouve, acompanhando lives contra Jair Bolsonaro com interesse e tirando título de eleitor para votarem pela primeira vez seguindo sua orientação. Com duas Anittas no Brasil, Lula ganharia no primeiro turno.

Anitta é para Lula o que as duplas sertanejas se tornaram para Jair Bolsonaro. Aliás, o universo sertanejo precisa ser registrado como o primeiro caso na história de um gênero musical convertido a partido político. Ou melhor, a uma base política fechada 100% em torno de um mesmo candidato. Ou alguém pode apontar um nome sertanejo que declare seu voto em Lula? Ou que apenas fale contra Bolsonaro? Mesmo o rap, com toda a aproximação que fez do PT nos anos 2000, jamais se entregou em igual devoção a um político de esquerda. Ao tentar uma entrevista recente com a cantora Roberta Miranda, entendendo por seu histórico de feminismo e afirmação de gênero que ela poderia ser uma voz dissonante à idolatria conservadora, tive a resposta de que a cantora não falaria sobre política.

Os sertanejos são fura-bolhas poderosos que também falam a um público verde, em mais de um sentido. Eles, os artistas, chegam a plateias gigantes via feiras agropecuárias mantidas por ricos empresários do agro negócio, soam como trilha sonora de um Brasil esteticamente próspero e atuam com uma capilaridade descomunal. A cada final de semana, como em uma carreata continental, cantores, cantoras e duplas sertanejas levam a “ideia Bolsonaro” para milhares de cidades interioranas do Sul ao Norte do país ao mesmo tempo. Nenhuma cruzada territorial teria a mesma eficiência – e nenhuma geração fica de fora. Só para pegar alguns expoentes do bolsonejo, a cobertura etária fica assim: Naiara Azevedo converte os mais jovens, Bruno & Marrone ficam com os trintões, Zezé Di Camargo & Luciano reforçam os 50 mais e Sérgio Reis fala aos mais velhos. Nenhum partido organizado contou com a mesma máquina.

A música dos campos brasileiros caiu no colo de Jair Bolsonaro depois de passar por um processo histórico de blindagem conservadora. Como se não pertencesse à América Latina, o Brasil dos anos de ditadura deixou o trabalho sujo com os cantores urbanos de protesto e deu as costas aos movimentos campesinos que se formaram contras as ditaduras vizinhas. No Chile, Victor Jara emanou de uma família de camponeses para cantar contra a ditadura imposta por um dos ídolos de Jair Bolsonaro, o ditador Augusto Pinochet. Perseguido pelos militares de Pinochet, Jara acabou preso, torturado e fuzilado em 1973. Na Argentina, Mercedes Sosa, a “Voz dos Sem Voz”, saiu dos interiores de Tucumã, a noroeste do país, para infernizar a vida dos generais do pós Golpe de Estado de 1976. Seus discos foram proibidos e ela teve de se exilar em Paris e em Madri. No Uruguai, o grupos Los Olimareños perturbou tanto os governantes que, mesmo antes do golpe militar de 1973, eles já estavam jurados de morte e proibidos de se apresentar.

Enquanto isso, por aqui, Tonico & Tinoco e Milionário & José Rico seguiam reproduzindo o amor romântico baseado em relações muitas vezes machistas, bélicas e intolerantes. Eles são totens intocáveis, cronistas de seu tempo e poupados mesmo por quem diz que “gosto de música sertaneja, mas do sertanejo raiz”. Ainda assim é curioso como o sertanejo raiz vai preparando o sertanejo árvore. Cabocla Tereza, de Raul Torres e João Pacífico, eternizada na voz de Tonico & Tinoco, conta como é que um homem limpa sua honra ao saber da traição da mulher simplesmente matando-a a tiros. Boiadeiro de Palavra, de Tião Carreiro e Pardinho, vai além. Uma mulher corta os cabelos sem avisar ao marido. Como vingança, ele a faz voltar ao barbeiro e, de revólver em punho, o obrigado a passar a navalha no resto, deixando a esposa só no couro. Ao final, faz a mulher careca andar pela praça para aprender a lição. Sinais de um Brasil armado, machista e misógino que só não tinha um presidente para chamar de seu.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.