Divulgação
Divulgação

Anita faz show em SP com novo disco, 'Vengo'

Destaque do rap no Chile, cantora se apresenta em São Carlos

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2014 | 03h00

Um dos festivais de música mais bacanas do interior de São Paulo acontece neste final de semana em São Carlos, no Parque do Bicão. O Festival Contato reúne atrações como Karol Conká, Otto, Os Mulheres Negras, Cérebro Eletrônico, Tika, Celacanto e Coutto Orchestra.

Entre os artistas internacionais, um show particularmente impactante será o da “rapera” franco-chilena Anita Tijoux, há alguns anos uma das maiores expressões femininas do hip-hop na América do Sul. Ela está lançando seu novíssimo disco, Vengo, o quarto álbum da artista.

Filha de ativistas que foram exilados na França nos anos 70 pela ditadura de Pinochet, Anamaría Merino Tijoux nasceu em Lille, na França, e cresceu em Paris. Conta que, na adolescência, um artista brasileiro fez sua cabeça: Chico Buarque (além de Maria Bethânia, Rubén Blades e Pablo Milanés). Sua família só voltou ao Chile em meados dos anos 90, e seu hip-hop é muito marcado pelo ativismo e engajamento. Os temas vão do feminismo ao ambientalismo, justiça social e pós-colonialismo.

A faixa-título de Vengo, seu novo disco, já avisa qual é sua disposição. "Venho em busca de respostas com o punho cerrado e as veias abertas/Venho como um livro aberto/ansiosa de aprender a história não contada de nossos ancestrais." Cai como uma luva, por exemplo, para os netos reencontrados pelas Avós da Praça de Maio da Argentina, crianças que foram sequestradas pela ditadura militar.

"O que acontece é que a América Latina tem uma história similar, com ditaduras que aconteceram em tempos cronológicos simultâneos, e seus países compartilharam essa violência, com um número grande de extermínios, de desaparecidos. Houve casos de militares brasileiros que vieram ao Chile para ensinar técnicas de tortura", ela contou, em entrevista ao Estado por telefone.

Ela se coloca como uma das apoiadoras dos movimentos estudantis que deflagraram no Chile, principalmente a partir de 2001, e criaram ondas por todo o continente. “Eles despertaram um país que estava muito adormecido, no qual se ensinou durante anos a não protestar, não gritar, não espernear. O medo anestesiou um país inteiro. Me dão muito orgulho, esses jovens e a sua ânsia de apoderar-se do saber, do conhecimento. O saber é algo universal, não pode ser visto com o objetivo do lucro, como acontece no Chile. Como mãe, também me sinto orgulhosa da juventude”, afirmou a cantora.

Falando assim, Anita pode parecer uma versão "meiaoito" de Mano Brown, mas seu hip-hop é cheio de curvas. Ela canta ladeada por um poderoso grupo de metais, e dois pilotos de laptop e teclados no outro extremo do palco. “Eu creio que, com o tempo, a experiência de tocar com esses músicos, com essa parte mais acústica do show, isso tudo me deu uma abertura musical incrível, muito além da que tinha quando tocava apenas com um DJ e um MC. Me mostrou a amplidão, em todos os sentidos, da música, e a convicção de que se pode ampliar para outras plataformas”, ela disse.

Anita afirma que seu hip-hop "é uma mescla muito rara de influências bem diversas, que incluem franceses e americanos, de grupos como NTM e IAM, da França, e americanos como Public Enemy e The Roots". Mas também de artistas de outros universos que não o rap, como Les Rita Mitsouko, Bernard Lavilliers e Renaud Séchan. 

Seu sucesso mais impactante foi 1977, que compôs em 2009 (teve duas indicações para o Grammy), que é o número do ano em que nasceu. Pulsante, suingada, a música encontra Anita fazendo rimas que conectam uma certa intelectualidade universitária ao gueto mais indignado.

Apesar desse trânsito privilegiado, ela diz que não se vê fazendo política tradicional. "A política corrompe os ideais. Não funciona, as atuais democracias como as experimentamos têm tido resultados sórdidos. Jamais faria política dessa forma. Mas tenho amigos que sabem muito de política, que me mantêm informada, com os quais debato", ela lembra.

Amigos é que não lhe faltam. Ela tem músicas gravadas em colaboração com Lucho Gatica, Julieta Venegas, Inti-Illimani, Legua York, Los Tetas, Solo de Medina, Santo Barrio, entre outros. Mais recentemente, fez uma colaboração com a palestina Shadia Mansour, que a encantou pela sensibilidade musical.

Pouca gente passou batida por 1977, a canção. A música foi eleita no site do Radiohead, por Thom Yorke, como uma das “canções para se ouvir longe do escritório”, tempos atrás. Chamada para lançar seus discos pelo mesmo selo de Justice, Diplo, Roots Manuva e Aphex Twin, Anita ganhou também as paradas norte-americanas. O New York Times a elogiou. A Rolling Stone também. Mas Anita não se deslumbrou: suas rimas perseguem uma maturidade artística que ela pretende exemplar.

"Tem uma coisa que é chave: há aqui um condicionamento - a cultura, a educação, tudo sugere que você nunca vai ser ninguém. É tipo 'louco, nasceste em Maipú, vá à escola, senão não vais ser ninguém', mas no fundo a gente quer que isso seja mentira. Creio que, na minha família, sem querer, me inculcaram isso. E isso gerou raiva, frustração de acreditar que nascemos para coisas pequenas. Porém, se você propõe e busca, e joga de maneira inteligente, consegue. É isso que está se passando com o hip-hop chileno. Há uma mudança de mentalidade, como fez Bielsa com a seleção de futebol", disse ela, em entrevista ao jornal El Mercurio.

PROGRAMAÇÃO

Os Mulheres Negras

A banda de Mauricio Pereira e André Abujamra fez história nos anos 1980, com presença de espírito e um ideário low tech. Sua retomada é interessante para que se saiba quanto estavam adiante do seu tempo.

Cérebro Eletrônico

No momento em que seu fundador, Tatá Aeroplano, experimenta com um disco novo seu coté Geraldo Vandré do século 21, a banda original retoma o fôlego iconoclasta com o disco Vamos pro Quarto

Otto

O cantor pernambucano Otto tem feito sucesso com seu projeto de revisitar o repertório do disco Canta Canta Minha Gente, que Martinho da Vila lançou em 1974

Karol Conká

A curitibana Karoline dos Santos de Oliveira, que sonhava em ser Lauryn Hill, e se projeta como uma das grandes do hip-hop nacional

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.