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Angelika Kirchschlager mostra toda sua intimidade espiritual em espetáculo

Meio-soprano austríaca exibe bela e encorpada voz ao fazer uma súmula da Viena musical do século 19

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO

07 de abril de 2016 | 19h28

Ela mora na rua em que Schubert viveu em Viena. “Todo dia, passo em frente à sua casa”, disse, na quarta, 6, ao Estado. Sua intimidade é não só geográfica, mas espiritual, absoluta, com o “lied” do príncipe da canção, o mais destacado compositor deste gênero tão especificamente alemão. A fluência, expressividade de sua belíssima e encorpada voz de meio-soprano serve aos versos, jamais se sobrepõe a eles tentando mostrar virtuosismos. A música fala mais alto. 

A austríaca Angelika Kirchschlager fez uma súmula da Viena musical do século 19. Partiu das canções ao mesmo tempo refinadas e acessíveis de Schubert e chegou às populares operetas de Strauss e outros nomes hoje pouco conhecidos como Stolz, Hauberger e Sieczynski, autores, no entanto, de melodias que frequentam nosso inconsciente - sempre regadas ao ¾ fascinante da valsa, eterno substrato da cidade.

O concerto apresentado nesta terça-feira, 5, na Sala São Paulo, abrindo a temporada 2016 do Mozarteum, teve dois tempos distintos: Schubert na primeira parte; operetas na segunda. Mote que os abraçou o tempo todo: a magia de Viena, uma cidade onde a música de consumo convivia harmoniosamente com a música dita mais elaborada. Uma diferença postiça que só nós hoje fazemos. 

A Cappella Istropolitana, formada por músicos eslavos liderados pelo spalla Robert Marecek, construiu uma leitura leve, juvenil, da sinfonia nº 3 escrita por Schubert aos 18 anos: um adolescente descobrindo Rossini e as maravilhas da música à italiana, tiques e truques franceses; e se descobrindo capaz de criar melodias memoráveis. 

As quatro canções de Schubert, todas muito conhecidas, foram apresentadas em arranjos para cordas, em vez do piano original acompanhando a voz. Não foi o melhor momento do concerto. A homogeneidade das cordas provou ser menos impactante do que o piano genial em Erlkönig. Estivemos muito distantes das notáveis orquestrações de Brahms, Reger e Britten para os lieder de Schubert.

Com um brilho especial nos olhos, Angelika resplandeceu na segunda parte. Ela queria mesmo é mergulhar de cabeça no universo informal, atrevido, gaiato, das operetas vienenses, matrizes do musical norte-americano. Foi impagável em Uma Noite em Veneza, de Johann Strauss, fazendo a bêbada escrachada; sutil em Tu Deves Ser o Imperador da Minha Alma, de Stoltz; e sonhadora em Viena, Cidade dos Meus Sonhos. 

Tivesse o recital sido com piano, ela poderia mostrar no extra uma das excelentes canções do norte-americano Jack Heggie, 55 anos, sem dúvida um ponto de chegada do gênero neste fabuloso itinerário de dois séculos de transformações. Curioso? Ouça seu mais recente CD, Moon’s a Gong, Hung in the Wild (Avie, 2015), dedicado às canções de Heggie.

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