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Angela Hewitt leva sua perfeição técnica a Bach em São Paulo

Em ‘Arte da Fuga’, a pianista mostra uma interpretação polida e refreia a adrenalina da obra-prima do compositor

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2015 | 18h00

Encarar a Arte da Fuga em recital é missão impossível, como escalar o Everest sem equipamento de alpinismo. Bach não indica instrumentação nem oferece indicação para a execução. São apenas notas no papel pautado. Ao todo, 14 fugas e 4 cânones – todos construídos sobre o mesmo tema – distribuídos por 90 minutos. Com certeza, o dublê de pintor e crítico musical italiano Alberto Savinio pensou nela quando a comparou a um milagroso tônico capilar: “O tema da fuga cai, e é como se uma semente mágica caísse na cabeça de um careca e a transformasse de repente em uma floresta de cabelos”. Em seguida, explica o contraponto como movimento interno da música. “Antes de Bach, a música parecia não ter vida nem corpo; mais especificamente, faltavam-lhe órgãos internos.” 

Bach não só aperfeiçoou o contraponto. Levou-o a patamares inalcançáveis. Em vez de fazer música abstrata como o manuscrito sugere, criou um mundo concretíssimo em 20 obras-primas. Abraçou o mundo com um mísero tema. Estamos diante de sons a um tempo abstratos e sanguíneos, que pedem interpretações capazes de assumir riscos. Historicamente, Glenn Gould inaugurou as interpretações mais livres, de modo até então inimaginável. Outros, que o seguiram, também trilharam estes caminhos. Como, por exemplo, o brasileiro João Carlos Martins numa integral que fez época; ou então o húngaro Andras Schiff com um recente e iluminado Cravo Bem Temperado (ECM).

O Bach de Angela Hewitt que se ouviu na terça, 7, na Sala São Paulo é polido. Permite-se alguns bem-vindos excessos, como nas fugas mais brilhantes. Exibe perfeição técnica irretocável. Mas refreia a adrenalina. Apesar da abstração, esta é música selvagem, exige sangue nas veias para ser recriada em sua plenitude. E Bach sem adrenalina é mais ou menos como beber suco de laranja-lima em coquetel. Ela repetiu o gesto de reger com uma mão enquanto a outra expunha o tema – mas soou meio postiço, não natural como nos gestos de pianistas como Gould ou Bavouzet. Se este Bach polido, “estudado”, é o preferido da atual geração, fico respeitosamente com o de Gould, Schiff e Martins.

Detalhes distorceram o clima do recital. Por exemplo, a insistência em não se pedir aplausos após a última fuga inacabada, porque depois de uma longa pausa Angela tocaria um coral que “teria sido” ditado por Bach em seu leito de morte. Isso criou falsas expectativas no público. A Arte da Fuga foi gestada desde 1736-7. Três anos depois Bach já tinha prontas 12 fugas e dois cânones. Carl Philipp, seu filho mais velho, fez da fuga inacabada mote para promover as vendas da partitura editada; e acrescentou um coral que nada tem a ver com a obra. Interessado em faturar com a obra do pai, que, aliás considerava ultrapassada, “vendeu” a versão de que ele, já cego, teria ditado o coral em seu leito de morte. Eletrizante mesmo teria sido encerrar o recital no momento em que Angela manteve as mãos no ar, após a última nota da fuga inacabada. 

ANGELA HEWITT

Sala São Paulo. Pça. Júlio Prestes, 16, Luz, 3367-9500. 6ª, 21 h; sáb., 16h30. R$ 45/R$ 178 (ensaio 5ª, 10 h, R$ 10). 

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