Andréia Marquee prova boa fase no Sesc Pompéia

Andréia Marquee lançou Zumbi (YB!), seu álbum de estréia, em agosto. De lá para cá, vem recebendo elogios por onde passa. Foi citada como destaque na crítica de Baião de Viramundo - Tributo a Luiz Gonzaga, publicada na sexta-feira retrasada pelo jornal The New York Times. É uma coletânea, também da YB!, em que canta Que nem Jiló, do mestre pernambucano. Zumbi chegou a ficar em terceiro lugar na parada européia de world music. O clipe da música O que Aconteceu com Nosso Amor foi eleito a melhor animação do último Vídeo Music Brasil (VMB) da MTV. Para confirmar a boa fase, ela se apresenta hoje no Sesc Pompéia. Mostra sua bem feita mistura de MPB com ritmos eletrônicos. De Nelson Rufino e Zeca Pagodinho a Caetano Veloso e Jorge Ben Jor, passando por músicas de sua autoria em parceria com Maurício Tagliari, Zumbi é demonstração explícita de que, bem usados, os elementos eletrônicos são sinônimo de inovação. "O conceito de reconstrução que a música eletrônica tem, que o hip hop também, de certa maneira, pode ser muito bem explorado. O que não diminui a possibilidade de utilizar os instrumentos convencionais. Na verdade, só agrega valor", explica, sentada no chão da sala A do estúdio da gravadora YB!, na rua Ásia, em Pinheiros, São Paulo. No show, tocará quase todas as canções do disco. De novidade, Antonico, de Ismael Silva, e Mulata Assanhada, de Ataulfo Alves. Foram várias as formações de sua banda ao longo do ano. No Abril Pró Rock, tocou ao lado apenas do produtor e DJ Anvil FX. Sampler e teclado. Para o show de estréia do disco, em agosto, no Bourbon Street Music Club, precisou montar a sua banda. Dela não mais se desfez. Cinco músicos. "A novidade é que estou fazendo arranjos novos em cima de músicas do disco", explica. "Assim está mais próximo do que pretendia."Vila Nova York - Nascida e criada na zona leste de São Paulo, Sapopemba, Vila Nova York, Andréia ainda não consegue viver com o dinheiro ganho com seu trabalho solo. Por isso, se apresenta aos domingos no Bourbon ao lado da big band Havana Brasil. Não se sente mal por isso. Pelo contrário. "Não estou em condições de largar trabalho", diz. "E tem mais. Tenho carinho. Cantar com uma formação quase de orquestra, pelo menos aqui em São Paulo, virou privilégio de poucas."O Havana é uma facção de sua primeira banda, os Heartbreakers. Toca ritmos latinos e caribenhos. Trabalho completamente diferente do que faz em sua carreira solo. "Meu disco é onde dou a minha cara a tapa. Onde coloco em prática o que tenho aprendido ao longo desses anos", comenta. "A experiência de tocar com bons músicos é sempre muito boa. Enquanto puder, não vou abrir mão."Começou cantando nos musicais de Oswaldo Montenegro. Passou por montagens brasileiras de peças norte-americanas, como Hair e Rent. Antes de entregar-se ao canto, participou como atriz em Do Kitsch ao Sublime. Um período em que aprendeu a se posicionar no palco, a representar. Continua explorando essas nuanças quando está no palco.Cantando no chuveiro -.Antes de penetrar o universo artístico trabalhou como secretária e estudou jornalismo. Não se formou. A transição, segundo ela, ocorreu de forma espontânea. "Não pensava em cantar, mas sempre fui musical". A mãe, figura importante em sua vida, faz questão de ressaltar, costumava dar uma canja no tanque. "E eu reproduzia no chuveiro."Menina de periferia nos anos 80, diz ter passado longe tanto do BRock quanto do hip hop. "Não sei como, mas ouvia muita música brasileira boa", conta. "Colhia nos sebos discos de Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Angela Maria." Cita também Ella Fitzgerald. Rock e Hip Hop são gêneros que veio a conhecer recentemente. Influências? "O popular dentro do popular. A música mais crua, do pagode do Partido em Cinco e do Fundo de Quintal, do samba-rock.""Bicho do Mato" - Aos 28 anos, bela morena, "nem branquinha, nem neguinha", como canta em seu disco, leva uma vida pacata. Idealista, defende que a música brasileira sofreu do mesmo mal da classe média. O empobrecimento. Mas acredita na transformação. Faz a sua parte.Já foi de badalar, hoje prefere o silêncio de sua casa. "A minha profissão já me obriga a viver na noite", explica. Não se trata de chatice, nem de resguardo. Apenas faz o que gosta. Costuma freqüentar shows, pois enxerga neles uma forma de trabalho. Bares, com o namorado. "Não tem nada a ver com assédio, porque não sofro mesmo", brinca. "Se meu trabalho depender disso, estou frita."Essa falta de deslumbre reflete-se em seu trabalho. A formação de menina classe média de periferia. As influências brasileiríssimas. A música eletrônica que conheceu pelas mãos dos amigos Maurício Tagliari, Rica Amabis, Anvil FX, entre outros. O profissionalismo adquirido após sete anos tocando na noite paulistana. O estágio como atriz. Tudo isso também. "Ouvir de tudo. Conhecer. Sem preconceito. De alguma maneira sempre acrescenta", defende.

Agencia Estado,

31 de outubro de 2000 | 12h46

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