André Mehmari e seu trio, no TIM Festival do Rio e SP

Faz quatro anos que André Mehmari semudou para uma casa na Serra da Cantareira, num condomínio a 45minutos do centro de São Paulo, em busca de silêncio para suamúsica. Já não dava para encontrar pausas nos ruídos de aviões ebares que cercavam seu apartamento em Moema. No trabalho decompor, arranjar e gravar melodias e harmonias, era cada vezmais difícil obter texturas, cuidar de minúcias, tocar váriasvezes uma peça ou canção até encontrar suas sutilezasfundamentais. Era, em outras palavras, cada vez mais difícilpara André Mehmari ser André Mehmari. Não à toa, nestes últimos anos o músico nascido em 1977em Niterói (RJ), onde ficou 6 meses antes de ser criado eeducado em Ribeirão Preto (SP), conquistou independência emtodos os sentidos. Sua agenda é a melhor tradução: no próximofim de semana ele e seu trio participam do TIM Festival (sábadono Rio, na Marina da Glória; domingo em São Paulo, no Auditóriodo Ibirapuera) e no próximo mês ele tem uma série de eventos -como o lançamento do DVD com Ná Ozzetti e a estréia decomposições para a Banda Sinfônica (o balé Atmosferas, com acompanhia Cisne Negro), para o trio Opus Brasil (intituladasChoro Breve e Variações Villa-Lobos, sobre o tema daBachianas nº 7) e para a Orquestra de Câmara do Amazonas(Shostakovichiana). Mehmari não veio para esta casa em busca de isolamento,pelo menos não no sentido romântico. Em estilo colonial ou"fazenda", comprada do arquiteto que a construiu, ela tem pédireito alto, paredes de pedras e tijolos, vigas e forros demadeira - e esse conjunto de características significa umaexcelente acústica. "É limpa e não é muito reverberante", defineMehmari, apontando a seguir a ausência de paralelismos noambiente, recortado por cômodos e um mezanino. No centro de tudoestá o piano de cauda japonês, K. Kawai, o melhor que pôdecomprar. Mehmari, que não esquece a sensação da primeira vez emque tocou no Steinway do Cultura Artística, em São Paulo, achaque faltam bons pianos nos teatros brasileiros e diz que boasacústicas, como a do Teatro São Pedro de Porto Alegre, tambémsão raras.Vencedor do prêmio Visa de 1998 Foi no Cultura Artística que Mehmari começou a serconhecido em 1998, quando conquistou o prêmio Visa Eldorado semnem ter completado 21 anos - e que lhe renderia o primeiro CD,"Cantos", gravado no ano seguinte. Mas a relação dele com amúsica datava de muito tempo. Desde os 8 anos, quando decidiuestudar órgão eletrônico, instrumento então na moda, ele tocavatodos os dias, muitas vezes ao lado da mãe, a acordeonista ecantora Cacilda Mehmari. Logo aprendeu outros instrumentos:piano, violão, viola, violino, flauta, clarinete - todosespalhados pelos ambientes da casa. Graças ao pai, comerciantede ferro, ganhou um estúdio só para seu aprendizado. O menino prodígio, no entanto, nunca gostou muito doaspecto "atlético" da técnica - das extensas aulas, dosexercícios de escala, das repetições robóticas. Introspectivo,estudava sozinho e, aos 13 anos, chegou a criar um métodopessoal para estudar piano a partir de peças de Béla Bartók. Namesma idade, teve seu "estalo" - ao ouvir estalar o disco devinil de Duke Ellington com Ella Fitzgerald. Mehmari, que atéhoje conserva LPs de jazz, descobriu no gênero o que mais lheinteressa até hoje: o improviso. A combinação de espontaneidadecom sofisticação o capturou. "Como uma esponja", ele seguiatocando e ouvindo de tudo, mas agora com outro espírito. Tambémcomeçou a compor; não tardou para que somasse 300 fitas K7 comobras suas. Mesmo quando chegou à universidade, a USP, depois de semudar para a capital, Mehmari não se interessou muito peladisciplina tradicional. Passava a maior parte do tempo nabiblioteca consultando e emprestando partituras e gravações queexaminava madrugada adentro na edícula onde morava na casa deparentes no bairro de Pinheiros. Pouco a pouco dominou orepertório de seus mestres eleitos: pianistas de jazz como BillEvans e Keith Jarrett, mas também de música erudita comoMaurizio Pollini e Alfred Brendel. Brahms se tornou seu ídolomaior - até o panteão ser dividido com Stravinsky - pelo retornoa Bach, ao nascimento do contraponto, à textura polifônica. O compositor é que guiava o estudante: "As idéiasmusicais me pediam técnicas." Ele reconhece ainda ter "lacunas"na formação técnica, mas não por acaso abre sorriso quando ouvefalar da cena do documentário Nelson Freire, de João MoreiraSalles, em que o grande pianista brasileiro "ídolo de todos nós"assiste a um vídeo do jazzista Erroll Garner tocando com umprazer que Freire diz invejar. "Sem espontaneidade, nãoacontece", resume Mehmari. "Eu me divirto com rigor." O rigor, ocuidado, o "polimento" - como nas numerosas caixinhas quecoleciona em sua casa - vêm dos pianistas eruditos. CopiarRubinstein executando as "baladas opus 10" de Brahms foi amelhor universidade. A MPB não era menos importante. Sua mãe, além de ter avoz parecida com a de Elis Regina, desde cedo o acostumara aouvir Cartola, Tom Jobim, Chico Buarque (que considerasubestimado como músico, em favor do letrista), MiltonNascimento, Edu Lobo - e seus primeiros duos de piano e vozforam com dona Cacilda. Cedo também descobriu Egberto Gismonti.Nos bares em que tocava na adolescência, como o Café com Jazz,em Ribeirão Preto, o repertório reunia Cole Porter, Gershwin eEllington com MPB, o que se repetiria em São Paulo, na big bandde Roberto Sion. Depois vieram as apresentações com MônicaSalmaso em bares como o extinto Supremo - do qual sente falta,devido à carência de lugares na cidade onde se possa tocar semprecisar disputar a atenção com barulhos de copos e risos.Tímido e convencional na aparência, Mehmari é o contrário doartista que faz "tipo".Primeiro CD saiu em 2003 Em seguida conheceu e trabalhou com maestros como TutiMoreno e Gil Jardim, ganhou o Visa - mas ainda faltava algumtempo para atingir notas mais altas. Nesse período se sustentoufazendo trilhas de filmes publicitários, das quais cita a de umcomercial do carro Mercedes Classe A. Ficou cada vez melhor nosarranjos, recusando sempre o excesso de "grooves", de distorçõeseletrônicas que já estavam em voga. A partir de 2003, as coisascomeçaram a mudar. Mehmari gravou o belo CD Lachrimae, lançadono ano seguinte com distribuição pequena (Cavi Records), ecolheu elogios dos entendidos. Ali já se encontra seu gosto peloque chama de "arqueologia" da canção brasileira: ele escavaartefatos de Caymmi, Jobim, Nelson Cavaquinho ou mesmo decompositores ativos como Guinga - e ele mesmo, autor de metadedas 14 faixas do disco. Em 2004 gravou seu terceiro disco autoral, Piano e Voz com Ná Ozzetti, lançado no ano passado pela MCD, com bomretorno de crítica e público. As versões de O Ciúme, deCaetano Veloso, Rosa, de Pixinguinha, e Felicidade, deLupicínio Rodrigues, são achados reveladores e se casam muitobem com canções atuais, como sua própria Eternamente, parceriacom Rita Altério. O CD traz também releitura de Because, deLennon e McCartney - e os Beatles, por sinal, foram tema deoutro CD seu, um dos projetos especiais que tem realizado. Na apresentação do TIM Festival, o repertório segue essalinha, de "um tempo em que a MPB era realmente popular", comNelson Cavaquinho, Milton e Jobim. Toca também três de suaautoria: Eternamente, Lachrimae e Veredas. (Este últimotítulo ecoa um de seus escritores prediletos, Guimarães Rosa;Mehmari leu "Grande Sertão" três vezes e batizou seu gato deMiguilim.) Diz que gosta de olhar para estilos como choro,valsinha e samba "não como objeto de museu". Busca a origem dealguns no passado europeu justamente para acentuar, comoGismonti, os caminhos locais. Não sente a tradição "como peso";à maneira de Stravinsky a respeito de sua "Pulcinella" cubista,declara ter "amor e não respeito" pela canção brasileira. Ele também afirma que às vezes uma canção conhecida, um"standard", é o que permite - como também demonstra Brad Mehldau pianista de jazz de 36 anos que Mehmari admira por sua"inteligência" - levar a melodia para uma alta abstração, aindaque sem se afastar de sua essência, sem se entregar ao improvisonarcisista. "Vou ao ponto zero da canção", arremata. E isso podeser que signifique recorrer a uma citação de Purcell no baixo deEu te Amo, de Buarque. Ou pensar em Beethoven diante dos"átomos musicais" de Caymmi. Mas o cancionista não tomou lugar do jazzista e doerudito; todos convivem em Mehmari. Ele conta que as encomendasque têm recebido para grupos de câmara e orquestras - como asuíte apresentada no Festival de Inverno de Campos do Jordão e oquarteto para a Osesp - são responsáveis por sua autonomiafinanceira. Admirador de Berio e Lygeti, mortos recentemente,Mehmari não vê fronteiras fechadas no condomínio da música."Música não é apenas som, como pensam", diz. "O som é o veículodela. Música é distribuir o som no tempo. É parar o tempo." Aquiem seu estúdio Monteverdi, na casa da Cantareira, ao lado dopiano que contém "200 anos de informação musical", ele pára.

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