Robson Fernandjes/AE
Robson Fernandjes/AE

André Mehmari conquista o mundo sinfônico no País

O piano e as composições de André Mehmari conquistam o mundo sinfônico no País e abrem trilhas para uma carreira no exterior

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

23 Outubro 2010 | 06h00

Aos 33 anos, o compositor e multi-instrumentista fluminense André Mehmari começa finalmente sua carreira internacional, após conquistar os principais prêmios musicais no Brasil (como o Visa, em 1998)e gravar uma série de discos com repertório variado e resistente à classificação por gênero. Tanto que, simultaneamente à execução de sua peça erudita Cidade do Sol pela Sinfônica de Heliópolis – no início do mês, em Bonn e Berlim, na Alemanha – foi relançado no Brasil um disco em que ele homenageia os Beatles ao piano (Beatles por André Mehmari, MCD), gravado há dois anos. Encomendada pela rede de TV Deutsche Welle, Cidade do Sol recorre à música de outro compositor popular em sua época, o austríaco Franz Schubert (1797-1828), de quem Mehmari tomou emprestado dois temas de sua composição Aus Heliopolis.

 

Impressionado com a história contada no poema de Johann Mayhofer que inspirou Schubert a compor Aus Heliopolis – texto que fala de uma cidade do sol localizada no frio Norte –, Mehmari decidiu traçar uma analogia entre a alegórica poesia do amigo do compositor austríaco sobre o poder transformador da música e o incêndio que destruiu a favela de Heliópolis em 1996 – e que motivou o maestro Sílvio Bacarelli a formar um conjunto musical com as crianças, embrião da orquestra que tocou Mehmari na terra de Beethoven.

 

Mehmari é um mestre em retrabalhar temas e dialogar com a tradição musical. No disco dos Beatles, ele tanto brinca com a Sonata ao Luar de Beethoven, usada como introdução da canção Because, como com o clássico caipira de Angelino de Oliveira, Tristezas do Jeca, citado em sua interpretação de Norwegian Wood. Essa versatilidade como arranjador e improvisador chamou a atenção dos executivos da gravadora italiana Egea, com a qual assinou contrato. Já em 2011 o público europeu vai conhecer parte da obra de Mehmari numa coletânea que precede o lançamento de um disco solo gravado em Perugia.

 

Essa proposta da Egea é tão ousada como a que fez o produtor alemão Manfred Eicher, dono da gravadora ECM, ao compositor e também multi-instrumentista Egberto Gismonti, uma das referências de Mehmari ao lado do pianista norte-americano Keith Jarrett, também contratado de Eicher, com o qual gravou o disco erudito mais vendido da história, The Köln Concert. Mehmari assinou contrato com os italianos para gravar, publicar suas composições e agendar suas apresentações fora do Brasil, o que pode significar uma carreira de concertos como solista internacional – e uma liberdade como improvisador comparável à de Keith Jarrett.

 

Mehmari, em entrevista ao Caderno 2+Música, diz que a sua estreia como compositor na Europa não muda a orientação de sua carreira, pautada pelo trânsito entre diversos gêneros musicais. Garoto prodígio, nascido em Niterói, ele foi criado e educado em Ribeirão Preto até os 18 anos, quando se instalou em São Paulo. Por isso, não surpreende sua fixação em Tristezas do Jeca, mais uma vez lembrada no livro O Brasil Não Existe (Publifolha), organizado pelo crítico Arthur Nestrowski e recém-lançado. O volume traz um CD de Mehmari ao piano, interpretando, além da mencionada homenagem ao Jeca, canções populares como Construção, de Chico Buarque. “A ideia foi reunir canções-chave que nos explicariam como brasileiros”, revela. “Como fui criado no interior paulista e me considero um legítimo caipira, no melhor sentido da palavra, escolhi Tristezas do Jeca”. A música, conclui, o faz lembrar desse universo “ingênuo e poético do interior, da praça, das tardes longas e silenciosas, do cheiro da chuva na terra”.

 

Por gostar tanto desse universo rural, Mehmari prestou homenagem ao escritor Guimarães Roa em sua composição Veredas e batizou seu gato de Miguilim. Leitor de Calvino, Borges, Rilke e Dostoievski, o pianista circula por diferentes universos em busca de inspiração, evocando imagens sempre que compõe. Essa tradução sonora de fenômenos visuais trai o espírito romântico de quem fez de Dom Quixote seu livro de cabeceira e tem Fellini como cineasta predileto. Para forçar uma relação simétrica, ele assume seu lado pragmático ao trabalhar sob pressão. Compor sob encomenda, como no caso de Cidade do Sol, não é um sacrifício, mas uma forma de um sonhador como Mehmari se submeter às exigências do mundo concreto, ele que aprendeu seis instrumentos quase como autodidata e só frequentou um curso de música erudita (na USP) ao desembarcar em São Paulo, em 1995.

 

É certo que a influência da mãe Cacilda, pianista, acordeonista e cantora, foi decisiva na formação do repertório musical de Mehmari. Seu ouvido absoluto também ajudou e ainda ajuda na hora de improvisar. Reminiscências da infância – como as citações de Norwegian Wood – misturam-se aos ecos do mundo harmônico de Tom Jobim, ao qual foi introduzido pela mãe, e ao universo contrapontístico bachiano. Mehmari é um compêndio musical. Vai de Monteverdi a Berio, passando por Brahms, Mahler e Villa-Lobos, a quem prestou tributo escrevendo duas peças de câmara interpretadas por excelentes grupos. A Osesp já apresentou em primeira audição sua Suíte de Danças Reais e Imaginárias.

 

O que falta, então, a esse futebolista erudito que gosta de chope, batata frita e ouve Mahler com a mesma reverência dedicada a Tom Jobim? Por que essa fixação em recriar clássicos, dar a eles uma roupa nova? “Eu vou sempre ao superclássico justamente para mostrar uma versão contrastante do original, para dialogar com ele.” Para Mehmari, um arranjador dedicado não quer repetir uma fórmula: “Ele quer, sim, evidenciar o que existe de essencial no tema a partir de uma leitura coerente e com personalidade.”

 

André Mehmari, toca sua versão de "Assum Preto" e explica a técnica do contraponto (duas vozes) e a polirritmia, que usa para enriquecer a música de Luiz Gonzaga

 

 

 

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