André Frateschi lança seu primeiro disco autoral, 'Maximalista'

Músico faz prévia do novo disco em show no Sesc Pompeia

Entrevista com

André Frateschi

João Paulo Carvalho, O Estado de S. Paulo

24 Junho 2014 | 02h00

Depois de 8 anos interpretando David Bowie no projeto Heroes, ao lado da parceira e mulher Miranda Kassin, fica difícil olhar para André Frateschi e não enxergar um pouquinho do camaleão do rock. Está ali, implícito, porém intacto. "São muitas as influências dele na minha vida, incluindo neste novo trabalho. Talvez musicalmente isso não fique tão claro em alguma música, mas Bowie é um artista completo e que me inspira todos os dias. Ele sempre estará dentro de mim", explica.

Agora pai de família e com os cabelos menos descoloridos do que os do ídolo do rock, Frateschi lança seu primeiro álbum autoral, Maximalista. O disco só chega às lojas em agosto, mas o show de lançamento será na quinta-feira no Sesc Pompeia. "Nunca tive pressa, foi um processo necessário para entender melhor minha própria essência. O reflexo disso tudo está em Maximalista", afirma o músico e ator paulistano de 39 anos, que recebeu a reportagem do Estado para um bate-papo em sua casa na zona oeste de São Paulo.

Por que você quis interpretar David Bowie?

Minha admiração começou quando ganhei o Aladdin Sane (1973). Tinha 9 anos. Achava que aquele cara era um super-herói, sei lá. Não entendia muito bem o Bowie. Depois de ter tocado em algumas bandas, queria interpretar alguém desafiador, tanto na parte vocal quanto na artística. O David Bowie tinha esses ingredientes, pois ele sempre esteve envolvido em todas as decisões da sua carreira, do figurino à iluminação. Ele é um artista completo, um dos maiores cantores do século. Foi um aprendizado único e que me deu bagagem para este novo disco.

O novo disco conta com a participação do pianista de Bowie, Mike Garson. Como foi trabalhar com ele?

Eu queria incluir piano em algumas composições. Estava no metrô e fiquei pensando em quem poderia fazer isso. O Mike Garson seria perfeito, imaginei, mas aquilo era algo tão distante. No entanto, resolvi mandar um e-mail. Disse que era um músico brasileiro, fã do trabalho dele e tinha algumas músicas. Para minha surpresa, ele respondeu. Pediu para que eu mandasse o material. Fiquei ainda mais em choque quando ele disse que tinha adorado. A partir daí, começamos a trabalhar juntos. Chorei muito quando ouvi o resultado final. Ficou lindo. Foi um sonho realizado. Ficamos amigos e ainda devo uma visita a ele em Los Angeles.

Além de Mike Garson, há mais influências de David Bowie neste novo disco?

Não tem um estilo de cantar ou uma música de referência. Não cheguei a pegar timbres de discos dele ou coisas do gênero. As influências do Bowie já estão todas depuradas. Por exemplo, quando fiz o Heroes, nunca foi uma preocupação cantar igual a ele, mas interpretar aquilo. É uma coisa de ator mesmo. De pegar um texto que já existe e transformar aquilo em algo seu. O Bowie, portanto, ficou em uma camada subliminar. Ele sempre estará dentro de mim.

Você é um músico experiente e com anos de estrada. Por que só agora decidiu gravar Maximalista, seu primeiro disco autoral?

Eu precisava passar pelas coisas que passei como intérprete para conseguir gravar este álbum. Ao contrário de algumas pessoas, não tenho preconceito em relação a isso. Aqui no Brasil, infelizmente, se confunde muito o intérprete com o cover. Para mim, é um trabalho riquíssimo. Interpretar é fundamental, principalmente na música. Foi uma preparação de longa data para que eu amadurecesse e ficasse satisfeito com minha evolução musical.

Para você, quanto a sua experiência como ator ajuda na hora de subir ao palco?

As duas profissões são complementares. A parte disciplinar do trabalho do ator é fundamental na hora de escrever uma música. É por meio desta disciplina que crio o terreno para compor. Em contrapartida, a espontaneidade e a parte mais anárquica da música também me ajudam a ter ideias e experimentar coisas diferentes na atuação. Meu pai (Celso Frateschi) e minha mãe (Denise Del Vecchio) são atores e eu cresci neste ambiente. Eles eram duros para caramba e eu ia junto a todos os lugares possíveis. Eu me sinto muito bem nos dois ambientes, não é uma coisa que me assusta. Está tudo interligado.

Maximalista tem letras fortes. Queda e Eu Não Tenho Saco externam bem isso. Como foi o processo de composição das músicas do álbum?

Maximalista é um disco que fala sobre o caos urbano e o significado de pertencer a uma cidade frenética. As letras, no geral, externam os sentimentos de uma pessoa normal dentro de toda essa esquizofrenia coletiva. Eu nasci sentindo cheiro de fumaça de caminhão. Esse é o nosso Brasil paulistano. O disco fala de angústia e pressa. Elementos que não se aplicam apenas a São Paulo, mas a outras metrópoles. A música brasileira está muito identificada com o que ela mostrou para o mundo. Isso inclui o samba e a bossa nova, as grandes tendências musicais brasileiras. Esses gêneros, entretanto, não englobam o variado leque de músicos que temos. Por incrível que pareça, continua sendo difícil fazer rock’ n’ roll no País. Você é considerado americanizado ou indie. Minha vontade também era de falar sobre isso. Mostrar ao público que o que eu faço é tão brasileiro quanto um banquinho e um violão.

Você, Pitty e os Titãs lançaram bons álbuns recentemente. Acha que o rock, de uma maneira geral, está se reinventando?

O Maximalista é antagônico ao fofomusic, que é aquela coisa bonitinha e cheia de letras melosas. Gosto de barulho e vários elementos misturados. O disco acabou coincidindo com o lançamento dos álbuns dos Titãs (Nheengatu) e da Pitty (Setevidas). Obviamente, não estou no mesmo patamar que eles, mas tem um grito do rock aparecendo de novo. O rock estava tímido, falando muito sobre o amor e as dores da vida. Isso encheu o saco. Não tem jeito, eu sou um cara que vai ser roqueiro para o resto da vida. Mais uma vez, o defunto (o rock) levanta da tumba e mostra a que veio. Acordamos de um período nebuloso. Tenho este sentimento.

ANDRÉ FRATESCHI

Sesc Pompeia. Choperia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. 5ª, às 21h30. R$ 3,20 a R$ 16. 

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