REUTERS/Mike Blake
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Análise: Vitória de Billie Eilish aponta para a força de uma geração distópica

Músicas perturbadoras que falam de pesadelos e transtornos psíquicos são seguidas por crianças e jovens

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 09h00

As vitórias de Billie Eilish representam um momento de frescor no Grammy. Seis prêmios a consagraram na noite de domingo, 26, pelo álbum de estreia When We All Fall Asleep, Where Do We Go? e apontaram não apenas para um trabalho artístico desta vez, mas para os transtornos de uma era, um comportamento distópico de uma ou duas gerações.

Fora dos padrões que dominam o Grammy há anos – ela não é do rap, não é cantora branca imitando voz negra, não é outra repetição do R&B e não é, ou não deveria ser, pop – a essencialmente underground Eilish faz música profunda, bem produzida pelo irmão Finneas O’Connell e canta muito, como mostrou na premiação ao fazer, só com o piano a acompanhá-la, When The Party’s Over.

Sua música é a ponta da montanha escondida sob a terra. Billie Eilish, de 18 anos, é a potencialização musical de um comportamento que precisa ser observado de perto. Quem a ouve falar de sonhos intranquilos, transtornos psiquiátricos e depressão não são apenas adolescentes em fases naturalmente problemáticas, mas crianças de 10 e 11 anos. Aparentemente, When The Party’s Over trata apenas de um desamor em versos como: “Em silêncio quando volto pra casa e estou sozinha / Eu poderia mentir, dizendo que gosto desse jeito, gosto disso / Eu poderia mentir, dizendo que gosto desse jeito, gosto disso / Mas às vezes nada é melhor / Quando tivermos dito adeus / Vamos apenas esquecer / Me deixe te esquecer”.

A mensagem do vídeo com quase 500 milhões de visualizações, no entanto, é outra. Em uma sala branca, de branco, canta com gestos de quem não quer mais viver. Olha para um copo à sua frente, cheio de uma bebida com a cor e a consistência de petróleo, e o toma como se desse cabo da própria vida, passando a chorar lágrimas da mesma bebida que tomou.

Em Bury a Friend, ela canta “Eu quero acabar comigo” por várias vezes enquanto, no vídeo, suas costas são cravadas por várias injeções ao mesmo tempo. Tudo muito sombrio, escuro, e com uma sonoridade sempre assustadora. Um trabalho de produção genialmente artístico, de provocar sentimentos que artistas dos mais consagrados não passam perto. Acompanhar a carreira de Eilish vai ser interessante quando virmos com ela o sol nascer. Só precisa chegar até lá.

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