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Análise: Um Cazuza exagerado de paixões e rimas desconcertantes

O grande talento de Cazuza não vinha das cordas vocais. Vinha da cachola que estava por baixo dos cachos. Era exagerado. Exasperado. Inesperado - principalmente naquele momento da música nacional. Se a década de 1980 pode se gabar de alguma coisa é que foi nela que o pop do País encontrou sua forma, sua melodia emprestada da gringa e seus maiores porta-vozes. Renato Russo e Cazuza, cada um com sua peculiaridade, são os últimos compositores de uma geração a ganharem alcance nacional. Há Marcelo Camelo, dizem alguns, mas o alcance não é o mesmo. Os anos 80 viveram o deslumbre da indústria fonográfica, que rastejou até a morte no fim da década seguinte. A voz, a partir de 2000, está diluída no oceano de informação musical da rede mundial de computadores. 

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2015 | 01h00

Russo e Cazuza surgem no contexto de frouxidão da Ditadura Militar, mas encararam a liberdade de formas distintas. Russo tinha seu jeito sisudo e letras mais afiadas, apontadas diretamente para cada político do País. Cazuza, não. Pedia para o Brasil “mostrar a tua cara”, mas essa não era a praia daquele menino do Leblon. “Meu partido é coração partido”, justifica ele em ‘Ideologia’. Era um carioca sorridente, de classe média (como Russo, aliás) e boa pinta. Agenor de Miranda Araújo Neto, "mas pode chamar de Cazuza", como diz no filme, sabia como levar a vida no Rio de Janeiro. Viveu intensamente, escreveu intensamente e, quando respondeu a um anúncio de banda que procurava vocalista, cantou intensamente. Era o encontro de um grupo que ansiava pela ebulição de Cazuza, enquanto ele precisava aprender a se construir como artista. A partida para a carreira solo, como os anos seguintes nos ensinaram, era inevitável. Necessária até. 

Cazuza não tinha gogó dourado. E não chegava perto disso. Era cheio de seus maneirismos, exagerava neles - até nisso! Evocá-lo como cantor é quase um menosprezo ao que ele sabia fazer com as palavras. Vinte e cinco anos após a sua morte, é fácil encontrar nas redes sociais algum apaixonado em busca de um “amor com gosto de fruta mordida”. Cazuza era bom, mesmo, em porres. E escrever deles, fossem eles etílicos, amorosos ou ambos, numa mistura fatal. Cazuza sabia viver, cantava isso, mas partiu cedo demais. Há 25 anos, derrapou nas curvas da estrada que manobrava com tanto arrojo. 

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