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Análise: Tudo o que não existiria sem Moraes Moreira

Além de compor quase todas as canções do álbum 'Acabou Chorare' com Luiz Galvão, era ele a criança que não desistiu de trazer o mundo para o seu quintal e criar uma música brasileira sem limites

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2020 | 15h15

Moraes Moreira será sempre maior do que um álbum, mesmo quando esse álbum é Acabou Chorare, de 1972, dos Novos Baianos, escrito na rocha como uma das maiores demonstrações de força da música brasileira em todos os tempos. Mas, se então fosse apenas essa a referência de um artista com uma honorável carreira solo iniciada a partir de 1974, mesmo sem a mesma linearidade nos anos 80, seria igualmente impressionante pensar na música que saía de sua cabeça em 1972. Sem Moraes Moreira, o samba de Santo Amaro da Bahia jamais teria visto uma guitarra, o rock progressivo dos ingleses não teria libertado os trios elétricos do carnaval e uma frase de criança filha de João Gilberto, Bebel, misturando espanhol com português, não teria se tornado nome de música e do disco que juntava tudo isso para sempre.

Sem Moraes Moreira não haveria Novos Baianos, e só dele pode-se dizer isso. Moraes era a alma e o corpo do grupo, com todas as credenciais respeitadas de seus parceiros. A guitarra de Pepeu, criando uma escola, é imprescindível na forma, assim como a voz e o star system de Baby, o canto e a aura de Paulinho Boca de Cantor, o baixo de estupenda musicalidade de Dadi e a bateria orquestral de Jorginho Gomes, irmão de Pepeu. São todos peças importantes e complementares da potência que aquilo se tornou, materializando uma ideia do tudo junto e misturado que, anos antes, nem os tropicalistas tiraram tão bem do papel. Mas Moraes, além de ter composto quase todas as músicas do definitivo álbum ao lado de Luiz Galvão, o arquiteto e a criança que via o mundo de seu quintal de Ituaçu, no interior da Bahia, com uma particularidade: em vez de sublimar sua terra para projetar-se a outro lugar, trazia o mundo do outro lugar para a sua terra e, assim, se tornava único.

Fora das listas e das picapes dos DJs de brasilidades, Moraes fica silenciosamente maior. O disco de 1975 tem o assombroso progressivo Chinelo do meu avô; Choro Pequenino está lá, grandiosa, escondida em Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, de 1979; e a monumental Santa Fé, usada como trilha de Roque Santeiro, em 1985, está nas plataformas com a primeira parte que poucos ouviram. Cantor? Não, ele preferia cantador. Enquanto o primeiro quer o glamour, o segundo chega a esquecer da própria existência diante da beleza do mundo que existe além de seu quintal.

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