REUTERS/Jeff Haynes/File Photo
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Análise: Tom Petty era um herói do rock sem preciosismo

Músico norte-americano de 66 anos foi encontrado desacordado em casa, em Los Angeles, na segunda-feira, 2

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2017 | 20h30

Os Beatles tocavam no The Ed Sullivan Show, no momento conhecido como o início da invasão britânica aos Estados Unidos, na noite de 9 de fevereiro de 1964. Thomas Earl Petty ainda não havia completado o 13.º aniversário, mas pôde assistir, até mais tarde, à banda de Liverpool que chacoalharia o mundo pop.

Disse, por vezes, depois que Paul McCartney, John Lennon, Ringo Starr e George Harrison mudaram o seu mundo. E partiu, desde então, a fazer o mesmo. Buscou a transformação pela música. “Aquilo teve um impacto profundo na minha vida”, contou ele, certa vez. Amava até a arrogância de John Lennon diante das câmeras e da histeria coletiva. Não sorria como o beatle, fazia-o com mais timidez, um sorriso de lado. 

A influência dos Beatles não era explícita. Estava, sim, na força motora capaz de colocar um jovem de 13 anos a querer viver de música até o fim. E assim o fez até os 66 anos. Tom Petty, nome assumido por Thomas na vida artística, morreu na madrugada de segunda, para terça-feira.

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Na manhã de segunda, foi encontrado na casa dele em Malibu, em Los Angeles, desacordado, sem pulso, sem respirar, após uma parada cardíaca. Encaminhado às pressas ao centro médico Ucla, em Santa Mônica, foi revivido e mantido “por um fio”, como noticiou o site TMZ, por aparelhos. Ainda no mesmo dia, familiares decidiram desligá-los. À 0h40 (horário de Brasília), Petty se foi.

“Em nome da família de Tom Petty, estamos desolados ao anunciar a morte prematura de nosso pai, marido, irmão, líder e amigo Tom Petty”, disse o empresário Tony Dimitriades, em comunicado. “Ele morreu em paz cercado por sua família, colegas de banda e amigos.”

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O coração levou embora quem viveu dele e por ele. Petty, cuja carreira se iniciou no início dos anos 1970, era a voz da alma do interior norte-americano. Enquanto Bruce Springsteen evoca o urbano da classe trabalhadora, Petty retratava as longas horas de estrada no interior dos Estados Unidos. Guitarrista eficiente, dono de uma voz que melhorou ao se tornar rouca com o tempo. Era um herói com os dois pés no chão, na terra batida, a empoeirar a garganta, a guitarra e tudo o mais. 

Quando ele e sua banda The Heartbreakers estavam para ingressar no Hall da Fama do Rock and Roll, em 2002, foram convocados com a seguinte prerrogativa: “Duráveis, cheios de recursos, trabalhadores, admiráveis e não pretensiosos”. Não faltava preciosismo a Petty.

De alma caipira, nascido em uma cidade do interior da Flórida chamada Gainesville, Petty tinha na sua mão esquerda, aquela que se posiciona sobre as notas no braço do instrumento, uma extensão do seu coração e sua visão de mundo cujos problemas são mundanos, resolvidos com um trago de uísque e um cigarro no canto da boca. Seus amores não eram problemáticos, suas questões estavam diretamente ligadas ao mundo com o qual conviveu até a chegada da fama. 

E a fama chegou a Petty, como o garotinho de 13 anos ansiava. Tornou-se um rock star depois de deixar o Mudcrutch, grupo com o qual lançou um single (Depot Street, em 1975, um fiasco), mas afundou. Dele, ao lado dos companheiros Mike Campbell e Benmont Tench, reergueu-se a contragosto em carreira solo. Quase solo, afinal, fundou o Tom Petty and The Heartbreakers. Foi com ele que lançou grande parte da sua discografia. Com a banda foram 13 discos, solo, apenas três. 

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O período mais sombrio da sua vida ocorreu durante os anos 1990, como relatou Warren Zane na biografia Petty: The Biography. Devastado com o fim do casamento de duas décadas com Jane Benyo, viciou-se em heroína. Entregue à droga, disse que livrar-se do vício foi “algo horrível de se ver”. 

Curiosamente durante essa década, experimentou um ressurgimento da fama com o disco Wildflowers, de 1994, responsável por reconectá-lo com o público jovem. Com o Heartbreakers, atingiu o topo das paradas uma única vez, com o disco Hypnotic Eye, de 2014, embora sua discografia tenha vendido, ao todo, 80 milhões de cópias.

Havia, ao que parece, mais espaço para Tom Petty crescer. Ele, agora avô, tinha planos, mas nenhum que o afastasse demais da neta. Seu coração, aliado de tantos anos, preferiu descansar cedo demais.

COLABOROU GUILHERME SOBOTA

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