Richard Shotwell/Invision/AP, File
Richard Shotwell/Invision/AP, File

Análise: The Weeknd não precisa (reclamar) do Grammy

Disco 'After Hours', um dos melhores da carreira do músico, liderou as paradas americanas, mas cantor foi esnobado pela premiação de 2021

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

25 de novembro de 2020 | 21h32

Não é como se o Grammy fosse digno de alguma defesa, mas a reclamação de The Weeknd — autor de um dos melhores álbuns do ano e um dos melhores de sua carreira, After Hours — parece mais como uma frustração pessoal e pontual do que qualquer outra coisa. O Grammy e a Academia de Gravação, como diversas outras instituições tradicionais, têm o hábito de perder os bondes da história, mas deixar este ano um bom álbum de fora das indicações principais não parece ser algo tão grave.

O que seria muito grave em 2020: deixar de fora artistas, compositores, produtores e intérpretes de músicas ligadas ao Black Lives Matter, o movimento antirracista que tomou contornos internacionais após o assassinato injustificado de pessoas negras pela polícia nos Estados Unidos.

Mas isso não aconteceu. Black Parade, de Beyoncé, concorre a quatro prêmios, incluindo gravação e canção do ano. Entre as indicações da cantora de R&B H.E.R. está I Can’t Breathe, para música do ano. The Bigger Picture, do rapper Lil’ Baby, concorre a melhor canção de rap e melhor performance de rap. Anderson .Paak também tem duas indicações com sua música sobre brutalidade policial, Lockdown, melhor performance de rap melódico e melhor clipe. Até no country, gênero geralmente menos concentrado em discussões raciais, Black Like Me, de Mickey Guyton, recebeu uma indicação.

Entre muitos desastres possíveis, ainda é razoável olhar com alguma admiração algumas das escolhas da Academia para o Grammy 2021: o grupo coreano BTS, fenômeno pop há alguns anos, enfim recebeu sua primeira e desejada indicação; as categorias de rock são dominadas por artistas mulheres, e há poucos trabalhos do gênero mais interessantes nos últimos anos do que os de Fiona Apple e Phoebe Bridgers, ambas indicadas; a multi-talentosa Brittany Howard amealhou indicações com canções de seu álbum Jaime em cinco categorias diferentes.

Algumas escolhas, é óbvio, podem ser discutidas. Na categoria melhor álbum de rap, a Academia preteriu jovens talentos de grande sucesso, como DaBaby e Lil Baby, dando preferência a medalhões fortemente influenciados (ou mesmo provenientes) do hip hop dos anos 1990, como Royce Da 5’9’’, Freddie Gibbs e Nas. A ignorada em The Weeknd, claro, não deixa de ser surpreendente, e também não apareceram nomes como Kehlani, Juice WRLD (rapper morto ano passado aos 21 anos), Luke Combs (mega sucesso da muito popular country music americana).

Nomes com pouca repercussão crítica e tímida acolhida de público, como a banda de soul-rock Black Pumas, o cantor e compositor Jacob Collier e o rapper D Smoke, por sua vez, estão concorrendo nas categorias principais. Por quê? Ninguém sabe.

E esse talvez seja o ponto mais forte da crítica de The Weeknd (um artista que, no final de todas as contas, não precisa do Grammy para nada): há pouca transparência no processo de seleção da Academia. No mais, um problema generalizado dos prêmios culturais e artísticos.

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