FERNANDO VIVAS / ESTADÃO
FERNANDO VIVAS / ESTADÃO

Análise: Síntese de um povo em seus ritos ancestrais de liberação

que ficou rotulado como axé music nunca foi um gênero, mas um jeito de fazer e tocar música

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 06h00

Desde os tempos da velha fobica de Dodô e Osmar, que virou o poderoso trio elétrico, até o estrondoso paredão do Baiana System, parado é que ninguém mais fica.

A Bahia, essa esfinge pioneira em criar moda, envolta em protótipos – como o estado permanente de euforia e o carnaval sem data de validade – inventou e reinventou tanta coisa desde os primórdios do tropicalismo, que o inclassificável ganhou rótulo genérico de axé music pra facilitar a compreensão de mais uma assimilação híbrida de música negra pelos brancos.

O que ficou rotulado como axé music nunca foi um gênero, mas um jeito de fazer e tocar música – dançante e sensual no caso, geralmente associado a coreografias sincronizadas –, como síntese de um povo em seus ritos ancestrais de profanação do sacramentado, exageros, liberação sexual, deboche do poder por meio da ocupação das ruas e gritos contra a segregação racial.

Agregação de galope, lambada, merengue, ijexá, reggae, samba, capoeira, batuque de candomblé, frevo eletrificado, entre outros ritmos nordestinos e afro-caribenhos, esse formato panorâmico ganhou mais força a partir da popularização do samba-reggae, tendo Neguinho do Samba (1954-2009) como figura central no comando da bateria do Olodum. Porém, não foi aí que tudo começou. 

Há momentos pontuais da pré-história do fenômeno com Caetano Veloso (“atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, alertava ele em 1969), Gilberto Gil, Moraes Moreira, Armandinho, Dodô e Osmar, os pais da invenção, a tradição dos blocos afros, a vocação para arte de Margareth Menezes, Gerônimo, Olodum, Carlinhos Brown, e o investimento no negócio com Chiclete com Banana, Luiz Caldas (tido como inventor da axé music), Daniela Mercury, É o Tchan, Banda Eva e a poderosa estrela pop Ivete Sangalo, entre outros. É um caminhão em constante movimento, como convém a um tipo de música própria para o entretenimento. 

Levada a sério como produto lucrativo desde que Daniela, a inovadora “rainha do axé”, paralisou a veia tensa do núcleo financeiro de São Paulo com um histórico show no vão do Masp em 1992, essa vertente mexeu significativamente com o mercado fonográfico.

Rendeu milhões de discos vendidos, empregou muitos técnicos e músicos, criou nichos de produção local em Salvador, influenciou a batida do samba das escolas cariocas, fisgou Paul Simon e Michael Jackson, entre outros artistas do mundo pop, e expandiu a música brasileira para o mundo como não se via desde a bossa nova.

Não é pouco. Quem não fazia parte da confraria, porém, foi sufocado por uma espécie de “monocultura” da música de rua baiana, que começou a decair a partir dos anos 2000. 

Agora, sem o poder da indústria de outrora, e com aura de cult, há sinais de recuperação no aspecto artístico, quando se vê o sensacional grupo Baiana System girando a roda intensamente ao repatriar a guitarra baiana, nascida como “pau elétrico” pelas mãos de Dodô e Osmar na década de 1940. E o MC Beijinho, quase acidentalmente, atualiza o suingue do Olodum com um dos hits do verão de 2017. A Bahia tropicalista ainda tem a régua e o compasso.

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