Acervo Estadão
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Análise: Sem barquinho, sol, sal, MPB4 surgem em um Brasil de conflitos

Nos anos 1960, havia um Fla-Flu entre fãs de música: qual era o melhor conjunto vocal, Os Cariocas ou o MPB4?

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2016 | 06h00

Nos anos 1960, havia um Fla-Flu entre fãs de música: qual era o melhor conjunto vocal, Os Cariocas ou o MPB4? Como muitas das polarizações nacionais, esta também não tinha muito sentido. Por uma razão simples: Os Cariocas antecediam o MPB4 e, inclusive, serviram de inspiração para os colegas mais jovens.

E como não se inspirar naquelas quatro vozes dos Cariocas, que vinham lá detrás, mas cujas suaves dissonâncias, de tom romântico, porém muito moderno, os transformaram no conjunto vocal por excelência da bossa nova?

Acontece que o MPB4, formado por jovens músicos de Niterói, já vinha em outra época, na pós-bossa nova, por assim dizer. Não apenas em termos musicais, mas, em especial, de forma espiritual, a bossa nova, da qual Os Cariocas se tornaram expoentes, expressava um Brasil afinado com o mundo contemporâneo. Moderno, leve, feliz, bem resolvido. Um país que olhava para si e, de modo geral, gostava do que via – o Brasil dos anos 1950. O Brasil de Brasília, de Eder Jofre, de Maria Ester Bueno, da Copa do Mundo na Suécia, da bossa nova, do cinema novo, do teatro novo. Tudo era novo, como se o País tivesse resolvido se passar a limpo e acelerar rumo ao futuro.

Já o Brasil em que surge o MPB4 é outro. Um país em que as distorções sociais parecem mais marcantes que alguma suposta harmonia. Os conflitos sociais tomam lugar do barquinho, do sol e do sal. E, dessa forma, embora influenciados pelos Cariocas, os jovens Miltinho, Magro, Aquiles e Ruy bebem em outras fontes, em especial a do CPC da UNE, os Centros de Cultura Popular da União Nacional dos Estudantes. Era preciso fazer uma arte que se comunicasse melhor com o público e trouxesse, em seu conteúdo, as contradições principais da sociedade brasileira. A saber, o abismo entre classes sociais, o sertão, as favelas, a opressão social causada pela ditadura militar, que assumira após o golpe de 1964.

Desse modo, o MPB4 nasce sob o signo da música dita “politizada”, vamos dizer assim. Música de alta qualidade, sim, porém engajada. E, em sendo assim, logo uma parceria forte se estabeleceu entre o grupo e Chico Buarque. Colaboração tão estreita que, às vezes, falavam que o MPB4 na verdade era composto por cinco integrantes – Chico sendo o quinto. Pode parecer uma hipérbole, um exagero. Porém, quem assistiu à apresentação do compositor e do grupo no Festival da Record de 1967 interpretando a música de Chico para sua peça, Roda Viva, não sentiria qualquer destempero na afirmação. Era como um quinteto afinado e afiado e não apenas em termos musicais. Essa parceria durou dez anos em meio aos atropelos da vida política brasileira, entre viagens, festivais e exílios.

Mas, claro, além de Chico, o repertório incluía os melhores compositores brasileiros, como Noel Rosa, a título de evocação do passado, e Aldir Blanc, Vinicius, Tom, João Bosco e Paulo César Pinheiro como celebração do presente.

O tempo foi passando e o quarteto manteve-se idêntico a si mesmo, apesar das perdas. Em 2004, Ruy se afastou, sendo substituído por Dalmo Medeiros. E, em 2012, morreu Magro Waghabi. Entrou Paulo Malaguti. E o MPB4 foi tocando. De forma literal. É mais que um conjunto vocal. É patrimônio da música popular brasileira.

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