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Análise: 'Roberto Carlos jamais viu Jerry Adriani como ameaça'

Marcelo Fróes, produtor que promete lançar a autobiografia de Jerry Adriani, escreve sobre o homem que conheceu de perto: "Ele nunca teve problemas em ser o segundo cantor mais importante da CBS, nem Roberto Carlos jamais o viu como ameaça"

Marcelo Fróes*, ESPECIAL PARA O ESTADO DE S.PAULO

23 Abril 2017 | 21h12

Diz a lenda que o rock brasileiro nasceu em 1964, quando Ronnie Cord lançou Rua Augusta. Naquele mesmo ano, o adolescente paulista Jair Alves de Souza virava Jerry Adriani, depois de alguns anos como vocalista da banda de rock Os Rebeldes. E era contratado como artista solo pela CBS, ainda que àquela altura esta já tivesse um cantor jovem estourado nas paradas: Roberto Carlos.

Nascido no Brás, de legítima origem italiana pela avó materna, o jovem Jerry não tinha sobrenome italiano. Mas tinha intimidade com o repertório de baladas italianas e, por isso, seus dois primeiros álbuns foram dedicados àquele universo de canções – em impecáveis interpretações à frente da orquestra regida por Alexandre Gnattali. E só em 1965, quando a Jovem Guarda estourava País adentro, Jerry pode finalmente gravar seu primeiro disco em português. Com apenas 18 anos, Jerry tornou-se ídolo nacional, estrelando programas de auditório na Excelsior e na Tupi, e gravando inúmeros hits. 

Não demorou muito e, numa ida a Salvador, para acompanhá-lo foi contratada a banda local Raulzito e seus Panteras. Ambos fãs de Elvis, Jerry e Raulzito logo fizeram amizade e em 1967 a banda veio para o Rio a convite de Jerry. No ano seguinte, Raulzito já estava compondo para os artistas da CBS, acabou sendo contratado como assistente de produção e, no início dos anos 70, antes de tornar-se Raul Seixas, produziu três álbuns seguidos de Jerry – inclusive aquele com seu grande clássico, Doce Doce Amor. 

Jerry Adriani nunca teve problemas em ser o segundo cantor mais importante da CBS, nem Roberto Carlos jamais o viu como ameaça. Sempre foram amigos. Wanderley Cardoso foi seu lendário rival, numa treta criada por empresários que pouco durou – mas que o Brasil nunca esqueceu. Jerry sempre se entrosou muito bem com todos os universos musicais brasileiros, e já nos anos 60 era visto com Nara Leão, Maria Bethânia etc. – coisa quase inimaginável na época. Morando no Rio desde o início da fama, já tinha seu apartamento na zona sul e frequentava as melhores festas. Sempre foi amigo de todos, da Bossa Nova ao samba, do rock à MPB, do Cinema Novo às telenovelas e até fotonovelas. Arnaldo Jabour incluiu Jerry como ícone da cultura jovem em seu filme Opinião Pública (1967).

Fiel aos amigos, relutou a desligar-se da CBS em 1975, quando a diretoria jovenguardista perdeu o posto. Tinha convites de outras gravadoras, mas não foi, e acabou lançando discos que foram negligenciados pelos divulgadores da CBS até o início dos anos 80, quando mudou para a PolyGram e estourou Indiferença. Pouco depois surgiu a Legião Urbana e muita gente achou que Será era um novo hit de Jerry, ou que o cantor o imitasse. Coube a Jerry, com a elegância de hábito, explicar que o cantor Renato Russo podia até ter um timbre parecido, mas que definitivamente não o imitava e na verdade era muito talentoso. Sempre tiveram uma relação de mútuo respeito e admiração, tanto que, nos anos 90, Renato gravou um disco de canções italianas e justificou aquilo que chamou de “conexão Jerry Adriani”. Após 20 anos, Jerry voltou a gravar em italiano, fez Io para o selo de Roberto Menescal e, mais adiante, um álbum com canções da Legião vertidas para o italiano.

Jerry jamais deixou de gravar discos ou de fazer shows. Era entusiasta dos revivals da Jovem Guarda, tinha imenso carinho e atenção por seu exército de fãs. Distribuía autógrafos e posava para fotos com a mesma disposição de 1964. Sempre esteve na mídia – tanto no rádio como na televisão e nas revistas. Só a chamada crítica especializada dos grandes jornais que nunca pareceu se importar com o que fazia – o que, na verdade, nunca o abateu. Jerry investia em sua carreira: em 2008 tirou do próprio bolso para fazer seu primeiro DVD, ao vivo no Canecão, com participações de Tavito e Fernanda Takai. Depois disso, o mercado acordou e ele fez mais outros dois.

Para marcar os 70 anos, completados com três festas em janeiro último, Jerry finalmente lançaria em 2017 sua autobiografia – iniciada em 2009, após a morte de sua mãe Angelina. (Jerry lia muito, sua casa era cheia de livros, e gostava de escrever). E logo após o carnaval gravaria um álbum intitulado As 14 Mais do Raulzito, celebrando os 50 anos de sua amizade com Raul Seixas com um apanhado de canções feitas naquela fase que conviveram na CBS. Jerry estava muito feliz, tornara-se avô e estava cercado de pessoas motivadas por seu trabalho. Após décadas de seu sucesso em Portugal e em Angola, este mês Jerry ia voltar a fazer shows internacionais e tinha agenda em Boston e Miami. Neste último verão, Roberto Frejat anunciou sua presença num grande show no Rio e puxou aplausos da plateia. Frejat sabe muito, e sabe que o rock brasileiro nasceu na mesma onda que o ídolo Jerry Adriani. O Brasil é roqueiro desde que Jair virou Jerry, ou vice-versa.

*MARCELO FRÓES É PRODUTOR, PESQUISADOR, E COAUTOR DA AUTOBIOGRAFIA DE JERRY ADRIANI.

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