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Análise: Radiohead encontra genialidade perturbadora entre os miados de gatos no cio de Thom Yorke

Faixa 'Burn The Witch' é a primeira a ser revelada do novo e nono disco da trupe de Oxford

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2016 | 14h11

A excitação de saber que há uma nova música do Radiohead circulando é igualmente proporcional à confusão mental proporcionada por cada novo petardo disparado por Thom Yorke e companhia nos últimos anos. Burn The Witch, faixa que debutou nesta terça, 3, é o cartão de visitas do novo álbum do grupo, cinco anos depois The King of Limbs, disco que já havia se posicionado entre o genial e o esquisito. 

Para o Radiohead, o salto entre as duas categorias é pequeno. A esquisitice sempre esteve ali, diante da inconformidade social de Thom Yorke até às saídas experimentais escolhidas pelo restante do grupo, formado ainda por Ed O'Brien (guitarra), Jonny Greenwood (guitarra, teclado e outros), Colin Greenwood (baixo) e Phil Selway (bateria e percussão). A genialidade também - e o uso dessa palavra, que será gasta nas próximas linhas mais uma boa porção de vezes, acostume-se, não é leviano. Poucos grupos chegaram ao patamar dos gigantes com tamanha necessidade de inovação. O Radiohead de Burn the Witch não lembra em nada a banda que despontou naquele ótimo Pablo Honey. E, ao mesmo tempo, a faixa não poderia ser mais Radiohead.

Antes da chegada da nova canção (e possivelmente do novo álbum, o nono da discografia do grupo), o Radiohead fez seu show de marketing. E foi efetivo. Há meses ouvia-se falar de um novo álbum da banda. Um empresário confirmou a chegada do álbum, para depois ser desmentido - ele não era empresário da banda. Mas o mundo acreditou. Todos queriam um novo disco do Radiohead. No fim de semana, mais uma boa jogada. Todas as redes sociais do grupo foram apagadas. Ficaram em branco. Cresceu o burburinho ao redor do trabalho que estava por vir.

Então, quando Burn The Witch chegou, com direito a um clipe tão perturbador quanto os versos miados de Yorke ao microfone, é inevitável não prender a respiração, na agonia dos milésimos de segundos entre o botão de play e a música começar de fato. E, então, o Radiohead, que já havia pescado a sua atenção, soltou sua bomba. 

A candura da técnica em stop-motion é trágica na trama de Burn The Witch. É um encontro macabro entre a animação infantil Trumpton, com toda a sua meiguice, e o assustador tom de ameaça de O Homem de Palha (cujo título em inglês, The Wicked Man, é infinitamente melhor), dirigido por Robin Hardy em 1973. De súbito, o Radiohead perturba, mesmo que o vídeo seja assistido sem som. Faça a experiência, aliás, e verá que poucas coisas incomodam tanto do que a cena final em silêncio: a fogueira, a fumaça e os rostos felizes dos moradores do vilarejo que acabaram de matar alguém. 

Trechos e a ideia que é carregada pelos versos manhosos de Yorke não são novos. Alguns deles, inclusive, estampavam a capa do disco Hail To The Thief, álbum de 2003. Os fãs mais ardorosos reconheceram outras partes das faixas em sessões de estúdios de discos como Kid A, In Rainbowns e até o já citado Hail to The Thief. 

O mais curioso é como essa canção, de alguma forma, joga o Radiohead de volta a esse período mais popular da banda, entre OK Computer, de 1997, até o disco de 2003. Ali, Yorke e companhia dissecavam a sociedade contemporânea através de citações muito orwelllianas. A banda endossava o discurso pessimista e o futuro distópico de George Orwell, escritor eternizado por obras clássicas como 1984 e Revolução dos Bichos. Alienação, controle das massas, perda das liberdades individuais. Somos todos andróides paranóicos, como Yorke cantou na faixa Paranoid Android, de 1997.

E assim o Radiohead se joga novamente na mesma perspectiva apocalíptica de outrora. E, curiosamente, soando contemporâneo, seja nas letras ou nos arranjos igualmente perturbadores. É uma caça às bruxas que está em jogo em Burn The Witch, como o próprio título entrega. Mas a voz imperativa de Yorke é um aviso: "Fique nas sombras", ele diz. "Abandone toda a razão / Evite contato visual / Não reaja". Apatia, seja política ou social, é a forma da sobrevivência no mundo contemporâneo dominado pelo extremismo, diz um dos subtextos de Burn The Witch. 

É o Radiohead no que faz de melhor, com a sua capacidade de colocar a unha em uma ferida que muitas vezes não sabíamos que existia. A embalagem com a qual a banda envelopa essa mensagem, contudo, é no mínimo controversa. Talvez seja um resquício infeliz da recente passagem do Coldplay por São Paulo, mas é inegável que o pizzicato (técnica que consiste em puxar as cordas dos instrumentos de corda em uma orquestra normalmente utilizada para se criar um som mais percurssivo), usado a partir dos primeiros momentos da faixa, lembra o início de (pasmem) Viva La Vida, faixa do cancioneiro mais pop e feliz de Chris Martin e companhia. 

É só uma impressão inicial, contudo. O Radiohead usa o pizzicato com os instrumentos de cordas passeando por apenas duas notas. Vão e vem, em uma cadência hipnotizante, quase até o fim. São elas que tragam o ouvinte para dentro das palavras de Yorke - quando elas são compreensíveis. Yorke, ao longo dos anos, desenvolveu essa rara técnica de cantar entre miados de gatos no cio. E isso não é necessariamente ruim. Sua voz se desenvolve entre agudos contínuos, chorosos, carregados de uma melancolia muito própria. Burn The Witch funciona bem assim, com o coral felino de Yorke, cenas perturbadoras e a perspectiva de um futuro sombrio. Ou seja, o melhor do Radiohead. Ou seja, genial e esquisito. 

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