Stefan Wermuth/Reuters
Stefan Wermuth/Reuters

Análise: queimado vivo, artista permanece em chamas depois da morte

Na luta entre o “ser humano comum” e o “ser humano coletivo”, há uma única energia vital sendo disputada

João Marcelo Bôscoli, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2019 | 06h00

Michael Jackson é um evento psíquico complicado. Aliás, nunca li um texto onde isso fosse tratado sem artífices ou abordagens sensacionalistas. Já escrevi nesse veículo ser o artista alguém fruto de aptidões contraditórias, divididas por Carl G. Jung entre o “ser humano” comum (aquele com medos, anseios, contas para pagar) e o “ser humano coletivo” (aquele que capta o inconsciente da humanidade e o devolve sobre a forma de uma obra de arte).

Ele também falou ser a vida do artista, como regra, altamente insatisfatória – para não dizer trágica – porque essas duas forças lutam pela energia vital do indivíduo. Para o artista, ele é sua obra e não um ser humano. Nem auto-erótico, nem hetero-erótico, nem erótico em sentido algum. Costumam ser infantis e vaidosos. Inumanos, arrisco dizer.

Chegando ao Sr Jackson, uma das pessoas mais amadas e atacadas que se tem registro, ele é a própria dualidade. De um lado, apenas podemos compreender suas capacidades artísticas analisando seus feitos artísticos. Nesse campo, parece haver consenso: é um dos maiores (talvez o maior) artista pop em todos os tempos. Nunca haverá outro e os seguintes permanecem seguindo seu léxico artístico mesmo sem saberem.

Ele não tinha vontade própria. E, para alcançar suas metas, seu ego pessoal precisou desenvolver vários tipos de más qualidades como impiedade, egoísmo e vícios porque, na luta entre o “ser humano comum” e o “ser humano coletivo”, há uma única energia vital sendo disputada.

Uma habilidade especial significa um grande gasto de energia em uma direção em particular, com uma drenagem de algum outro lado da vida. É, às vezes, necessário sacrificar a felicidade e tudo que faz a vida valer a pena ser vivida para o ser humano comum. Há pouquíssimas exceções à regra: precisa-se pagar um alto preço pelo dom divino do fogo criativo.

O caráter dos artistas lembra o de filhos negligenciados buscando protegerem-se da influência destrutiva de pessoas sem amor para lhes dar e desenvolvem más qualidades exatamente para esse fim e, mais tarde, mantêm um egoísmo invencível, infringindo códigos morais e leis. Para mim, a arte explica o artista e não seus conflitos e insuficiências.

Dez anos depois de sua morte, o suicídio mais lento e incompreensível da história da música, as coisas vão mal. Parei de ouvi-lo e não o relaciono mais a quase nada no meu dia a dia. Cansei de defendê-lo. Sempre achei seus discos mais do Quincy Jones do que dele, Michael. Mesmo antes dos escândalos. E, quanto mais se afastou do maestro, mais sua vida desandou.

Sempre soube ser um maluco, alguém completamente apaixonado pelo espelho. Embora ache o documentário lançado esse ano um lixo, cheguei à exaustão. Perdeu a graça. Meu Mickey Mouse morreu. 

E sua família, com quase um bilhão de dólares, faz o que para defendê-lo? Quase nada. São uns parasitas, assim como seus “assessores” e sua entourage, aqueles cânceres inventados pelo star system. Eles permanecem em Neverland, vivendo com fartura, impossibilitando o benefício da dúvida. Se tivesse o tal bilhão, investiria tudo para defender meus pais, filhos ou irmãos, por exemplo. Eles permanecem inertes.

Aqui no Brasil, os textos tratam-no como condenado, desprezando o fato de nunca ter aparecido uma prova material, uma peça de roupa com vestígios ou algo similar. E os pais das crianças deixadas com ele livremente? Estão soltos, embora para mim sejam criminosos. Você deixaria seus filhos, sobrinhos ou netos dormirem semanas a fio com um louco? Esse fato é altamente questionável e os torna coautores de crimes nunca provados (MJ foi considerado inocente em um julgamento dirigido por racistas). 

Se houve algo, eles são cúmplices. E, se aceitaram algum dinheiro para o astro seguir em frente, para mim, é uma confissão de culpa e mau-caratismo. Nenhuma cifra é capaz de apagar um possível crime contra crianças.

Seu legado foi arranhado? Sim, claro. Vários veículos e instituições baniram-no. Tornou-se desconfortável ouvi-lo ou falar dele ao imaginar o inaceitável: molestar crianças. 

Mesmo apoiando-se na ausência de provas ou nos depoimentos de sua governanta brasileira hiper religiosa, do Sean Lennon ou do Macaulay Culkin dizendo nunca terem presenciado nada. Tudo em vão. Como sempre aconteceu com Michael, preferiram o mito aos fatos. Todavia, nada mais importa. Ele foi queimado vivo e permanece em chamas depois de morto. 

* Dedicado a Carl Gustav Jung

 

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