Amanda Perobelli / Estadão
Amanda Perobelli / Estadão

Análise: Quando não quer só ‘lara larauê’, Criolo se acha no desamor em disco de samba

'Espiral de Ilusão' chega às plataformas digitais nesta sexta-feira, 28

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2017 | 05h00

Criolo era Doido, mas deixou o sobrenome artístico para trás, tal qual o universo do rap sisudo e embolado por palavras rápidas. Prestes a desistir de tudo, da carreira, do hip-hop, encontrou, sob o comando musical de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, a canção. Nó na Orelha era o nome do disco, o segundo dele, um petardo capaz de dar, mesmo, um “nó nas orelhas” de quem ainda achava que rapper não era capaz de cantar. Criolo estourou. Escapuliu de algumas bolhas, tornou-se figura central da nova música nacional. 

Talvez o universo da canção brasileira precisasse do olhar e da língua solta de alguém como Criolo, vindo do Grajaú, do rap, do gueto, para escancarar algumas verdades que teimavam em varrer para longe. A causa da unanimidade também não era só um bolero ou a canção-hino Não Existe Amor em SP. Era mais do que isso. O grande acerto de Ganjaman e Cabral foi encontrar, em Criolo, o cantor que habitava o corpo do rapper. Ao livrarem ele do cabresto invisível, encontraram uma joia a ser lapidada. É a voz, seja no samba, seja no afrobeat, no brega, no reggae, que comanda os ótimos Nó na Orelha (2011) e Convoque Seu Buda (2014). 

A chegada de Espiral de Ilusão apresenta um novo desafio para Criolo, a voz. A liberdade de gêneros foi encaixotada. Abre-se a gaveta dos sambas – e suas vertentes e subgêneros – e coloca o cantor a provar a si mesmo em um universo não tão abrangente. Samba de breque, pagode, repente, partido-alto, são regidos pelo cavaco, pela cuíca, pela estrutura do samba, com suas primeiras estrofes dobradas, as pontes para refrãos em crescente. Das dez músicas, duas não são assinadas por ele: Hora da Decisão é de Ricardo Rabelo e Dito Silva, e Filha do Maneco, uma composição de Criolo, Rabelo e Silva. 

A limitação põe Criolo, na voz e mente, à prova. De cunho verdadeiramente político, o cantor apresenta Menino Mimado, com seus versos de “meninos mimados não podem reger a nação”, e Cria de Favela, na qual ele faz crítica à reforma da Previdência ao atestar: “Eu vivo a sofrer, me aposentar só depois de morrer”. Noutras, Criolo busca colocar sua voz em temas leves. Entre “larará” e “lararês”, ele acerta e erra. Espiral de Ilusão não é excelente porque alguns de seus sambas não se seguram mesmo que a voz de Criolo ainda seja certeira. É o caso de Lá Vem Você, uma canção pouco inspirada na voz de um bom cantor que abre o álbum de forma morna. 

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Dilúvio da Solidão, o mais Paulinho da Viola dos sambas do rapper paulistano, já aponta para um caminho pouco explorado por ele até aqui: o desamor. Em tons mais graves do que o restante, o cantor interpreta uma canção de saudade. É quando martela em sentimentos de cor cinza que Criolo acha sua direção e seu samba. É como se ecos do “amor inexistente em SP” reverberassem em arrependimentos, solidão e desilusão. Em Nas Águas, ele eleva sua voz ao desespero com “eu tirei o sorriso de alguém, não mereço perdão, magoei teu coração”. Sussurra, na faixa Espiral de Ilusão, a dor de uma traição: “Como você dorme com isso?”. Por causa da clausura do samba, surge o melhor do novo disco do Criolo. Dentro do conceito de um gênero só, o cantor no corpo de rapper precisou olhar mais para dentro. Descobriu ali uma voz pronta para cantar as angústias de um coração machucado. 

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