ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO
ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO

Análise: Quando ficou grande demais para o trombone, Raul de Souza inventou outro

Criador do souzabone, instrumento com uma válvula a mais, Raul se rebelou contra a diplomacia instrumental da bossa nova e ajudou a trazer de volta os instrumentistas ao protagonismo da música brasileira

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2021 | 12h10

Muitos vão dizer por alguns dias que ele foi o maior trombonista do Brasil, um dos maiores do mundo. Sua morte será lamentada, imagens de cumplicidade serão postadas e sua generosidade, exaltada. Mas o que de fato Raul de Souza tinha, além da superfície e da história que se cata aqui e ali, para ser Raul de Souza? O que o levou aos inúmeros festivais de jazz pelo mundo, a estar onde a música brasileira mais brilhava desde 1957 e a gravar com Sonny Rollins, Airto Moreira, Cal Tjader, Stanley Clarke, Ron Carter, Chick Corea, Freddie Hubbard, Sarah Vaughan, George Duke, Lionel Hampton, Frank Rosolino, Sérgio Mendes, Flora Purim, Milton Nascimento e tanta gente? Que música era essa?

O crítico Zuza Homem de Mello morreu dizendo: “Ouça!” E quando as palavras faltarem e os clichês começarem a chegar, “ouça duas, três, quatro vezes!”. Não se conhecerá Raul de Souza por inteiro ouvindo apenas um de seus álbuns, mas uma parte de Raul já é inebriante. Então, com o perdão do imperativo, ouça, por exemplo, À Vontade Mesmo. Este primeiro álbum da discografia oficial e solo do trombonista, lançado em 1965, já o traz arrasador e pronto, aos 31 anos de idade, depois de muitas colaborações em estúdios, gigs no Beco das Garrafas e gafieiras pelos bailes do Rio de Janeiro.

Sua backing band, jeito bonito de chamar a banda de apoio, era tão luxuosa quanto o termo: tratava-se do Sambalanço Trio, de César Camargo Mariano, que vinha com a bateria de Airto Moreira e o baixo de Humberto Cláiber. Raulzinho, como ainda era chamado, vem espantosamente ágil e feroz para tocar À Vontade Mesmo, o tema de abertura de sua autoria. Um fraseado limpo e sempre muito melódico, com cortes na respiração e sem glissandos, o deslizar entre as notas que torna os trombones de vara tão mais sensuais do que os de pisto. Raul, jovem e em busca da lacração, só usou, até meados da década de 1970, as peças com pisto, ou válvulas, uma forma de tornar as notas “mais próximas” e conseguir respostas mais rápidas.

João Gilberto já havia lançado Você e Eu, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, toda compassada no álbum de 1961, e é bom saber disso antes de pular para a versão de Raul de Souza em À Vontade Mesmo. O jazz e sua força instrumental pulsava em Raul e o fazia se juntar ao time dos rebeldes em busca de um lugar de protagonismo para os instrumentistas. A bossa nova, desde 1959, havia se apresentado muito generosa aos compositores, aos arranjadores e, mesmo impondo sérias limitações de impostação, às vozes. Assim,

Você e Eu surge no álbum de Raul como uma libertação reverencial mas impositiva que dizia: por trás de toda a contenção das gravações minimalistas de uma bossa nova pode haver um músico exuberante. Seu trombone já chega improvisando no segundo ciclo harmônico, depois de tocar a melodia apenas uma vez, em um andamento bem mais veloz do que as versões de Você e Eu que se conhecia até ali. Ele faz extravagâncias deliciosas antes de passar a vez para o piano de Cesar e retomar a melodia novamente. Depois de dizer olhem para nós também, retomava sua admiração pela beleza melódica da avassaladora cena que se impunha a todos e tocava uma das mais belas versões de Primavera, também de Lyra e Vinicius, mas agora como uma bossa cool extremamente singela e delicada, como Chet Baker fazia com um aerofone menor, o trompete.

O Raul de Souza que se ouve em 1977, para conhecer mais uma de suas faces, é outro homem. Aqui, inspirado pelo funk e pela discoteca da época, ele faz um álbum pulsante, eletrificado e rock and roll. Sua vida já saiu do Brasil e se baseia agora nos Estados Unidos, onde viveu por quase 20 antes de sua partida para dezesseis anos de França. O jazz que ele respira já havia se fundido ao rock no início da década para criar o fusion, arrastando gente que o admirava, como Chick Corea, John McLaughlin e Miles Davis. Mas Raul viu tudo aquilo talvez como algo cerebral demais. Agora, no LP Sweet Lucy, tudo se eletrificava de forma espetacular e pop nas mãos gigantes do “funky boy” Byron Miller no baixo; do impossível baterista que o descobriu, Leon Ndugu Chancler, que cinco anos depois estaria gravando o álbum Thriller, com Michael Jackson; da tecladista e cantora Patrice Rushen e do guitarrista Al McKay, do Earth, Wind & Fire. Todos dirigidos por George Duke, da banda de Frank Zappa, The Mothers of Invention. Com o perdão da insistência, é preciso ouvir esse álbum.

Muitas histórias, músicas e um instrumento existem entre um álbum e outro, e por muitos anos antes do primeiro e depois do segundo. Falarão muito que Raul criou um instrumento e o patenteou, e é verdade. Seu nome é souzabone, uma peça de quatro válvulas, uma a mais do que os trombones de válvula normais. Raul adorava falar de sua invenção nas entrevistas e escreveu sobre ela em sua página de Facebook. Em 5 de abril de 2020, ele disse o seguinte ao postar a imagem de um de seus shows mais recentes: “O souzabone é o instrumento que criei. É um trombone de pisto com um quarto pisto a mais e geralmente é usado com pedais de efeito (oitavador, delay, etc), como nessa performance.” Seu apetite pela invenção não cabia mais no próprio instrumento. Foi preciso expandi-lo.

Há muitas histórias de Raul, e uma das mais saborosas foi confirmada ao repórter em uma entrevista ao Estadão, de 2014. Era sério mesmo que ele tocava para os búfalos quando era menino? Sim, ele disse. Contou que atravessava um rio de barco, levando seu instrumento em um case, quando avistou um búfalo enorme perto da margem. Em vez de fazer silêncio, como as outras pessoas, tirou o trombone do saco e tocou duas melodias, uma em tom maior e outra em menor. Jurava que os búfalos, antes mesmo das pessoas, haviam entendido a beleza de seu som.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.