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Análise: Quando a juventude deixou de ser uma banda de propaganda

Em 1986, o rock rompia amarras, pulava muros e caía em outros quintais

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2016 | 04h00

Foi muito bom ser adolescente em 1986. De repente, o mundo passou a falar o idioma de um menino de 15 anos como nunca havia acontecido. A conjunção planetária mais próxima deveria ser de 1965, quando a juventude foi criada por Roberto, Erasmo e Wanderléa à frente do programa Jovem Guarda. Mas aquela era a primeira encarnação, ainda ingênua, apolítica, indolor. Fazia uma revolução nos lares, não nas ruas. E falava essencialmente de amor. Vinte anos depois, os pais que haviam sido adolescentes em 1965 arregalaram os olhos. Agora, a história era outra. Os moleques não queriam apenas pegar as meninas. Algumas bandas já haviam mobilizado o País no ano anterior, em 1985, num festival de proporções de dilúvios bíblicos chamado Rock in Rio, e todas ganhavam musculatura em velocidade impressionante. O rock rompia amarras, pulava muros, caía em outros quintais e dava os primeiros gritos de liberdade no ano seguinte, ao fim oficial do período de ditadura. Havia, agora, mais otimismo do que a revolta do início da década punk.

Os Paralamas do Sucesso faziam um salto ornamental com Selvagem? Vinham crescendo desde Cinema Mudo, de 1983, e O Passo do Lui, de 1984, mas nada seria tão arrebatador quanto a coleção que eles abriam com Alagados e fechavam com Você, de Tim Maia. A própria Selvagem? ganhou imortalidade com uma letra que poderia ter sido criada em 2016: “A polícia apresenta suas armas / discursos transparentes, cassetetes, capacetes reluzentes / e a determinação de manter tudo em seu lugar”.

Até 1986, os Titãs eram apenas uma banda. Uma boa banda, mas sem o soco no estômago que dariam com Cabeça Dinossauro. Vinham de uma estreia pop de 1984, no disco de Sonífera Ilha, e de Televisão, no ano seguinte. Cultivavam ironia, se vestiam com propriedade e faziam amor, mas só agora aprendiam a gritar. Cabeça foi o disco de maior impacto da temporada.

Até 1986, a Legião Urbana era uma promessa. Havia lançado o primeiro disco com Será, Ainda É Cedo e Geração Coca-Cola Dois. O punk rock de Renato Russo ganhava lirismo em alturas que o rock nacional desconhecia. Tempo Perdido, Eduardo e Mônica, Índios, Quase Sem Querer. A partir de 1986, a juventude não era mais uma banda em uma propaganda de refrigerante.

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