F. CARTER SMITH | AP
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Análise: poucos foram capazes de criar um som tão único quanto Prince

A existência de Prince só se deu de forma avassaladora porque David Bowie já havia passado por ali; isso não tira os méritos do norte-americano como uma das figuras mais importantes da cultura pop

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2016 | 05h00

Há menos de um mês, Prince mostrava, em um palco de Toronto, no Canadá, uma versão emocionante de Heroes, de David Bowie, morto em 10 de janeiro deste ano. Ao piano, o músico norte-americano se metamorfoseava naquele que era a metamorfose em pessoa. Homenageava o homem que introduziu na cultura pop aspectos que, anos depois, seriam trilhados pelo próprio Prince Rogers Nelson: o estilo andrógino de se vestir e cantar, a forma de usar a moda a seu favor, a fusão de gêneros e estilos musicais sem medo, o entendimento de que o marketing era uma parte fundamental na cultura de massas.

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De certa forma, por mais que Prince e Bowie tenham sido contemporâneos no pop durante os reluzentes anos 1980, a existência de Prince só se deu de forma avassaladora porque Bowie já havia passado por ali. Isso, contudo, não arranca do norte-americano, que foi encontrado morto nesta quinta-feira, 21, seus méritos de ter se tornado uma das figuras mais importantes das cultura pop. Músico brilhante, personalidade marcante, embora extremamente genioso. Genial.

Assim como Bowie, Prince sorveu de diferentes estilos para cuspir um coquetel de influências das mais variadas, fincadas nos gêneros de origem negra nos Estados Unidos. Na guitarra, era um herói como poucos que apareceram na sua geração – e depois dela, inclusive. E a voz de Prince era uma mutação. Alcançava seus agudos costumeiros e fáceis (para ele), mas existia uma rouquidão ali, que se mostrava mais quando buscava notas mais baixas e graves. Não são poucos aqueles que se inspiraram diretamente na voz de Prince, como é o caso de Lenny Kravitz, uma versão mais sarada e infinitamente menos talentosa do que Prince.

No fim das contas, poucos se declararam diretamente influenciados por Prince. Por que existia algo de único ao se ouvir alguns de seus discos mais clássicos e poderosos, lançados durante a década de 1980. É, assim como o Bowie (e prometo que esta será a última citação do britânico), inimitável.

Os discos de Prince transpiram o suor de um músico dedicado a unir toda a sua capacidade e catálogo de conhecimento. Quando saiu For You (1978), a estreia, Prince tinha apenas 20 anos e havia gravado todos os instrumentos. Assim ele seguiu em quase toda a carreira. Foram poucas as exceções, quando já perto do fim da vida, ele se uniu a uma banda formada apenas por musicistas chamada 3rdeyegirl e, com elas, lançou Plectrumelectrum. E trata-se de um bom disco, bem seco, sem estripulias, mas um belo retrato de um músico cuja discografia já ultrapassava a casa das três dezenas de álbuns.

Prince, por anos, dominou o pop como queria. Tinha no seu jeito petulante a confiança na excelência do que fazia. Sete discos, lançados em sequência, são de dar inveja a qualquer um. Vieram, veja só, Controversy (1981), 1999 (1982), Purple Rain (1984), Around the World in a Day (1985), Parade (1986), Sign ‘O’ the Times (1987). Soube saborear funk de George Clinton até o swing e jazz de Duke Ellington, passando pelo R&B de Stevie Wonder ou o pop dançante de Michael Jackson. Purple Rain, a canção, é um hino, mas não se sabe de qual gênero. Rock? Pop? Não importa.

Em 2008, Prince foi histórico no festival Coachella ao recriar Creep, clássico dos anos mais adolescentes de Thom Yorke e seu Radiohead. No auge da maturidade, prestes a completar 50 anos. Foi visceral ao cantar a incapacidade de se adaptar. Gritava ao microfone, o desespero escoando pela garganta. Deixou sua zona de confortou e arriscou-se diante de milhões. Como um tal David B... Ops.

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