Análise: Percorso Ensemble comemora 15 anos em grande estilo

Resultado da teimosia do percussionista e regente Ricardo Bologna com músicos que comungam a paixão pelo novo

João Marcos Coelho, Especial para O Estado

29 Outubro 2017 | 16h08

O Percorso Ensemble conseguiu chegar a seus 15 anos de vida. E em grande estilo, com direito a duas noites de concerto no Sesc Bom Retiro: no dia 24, num excelente arranjo da Quarta Sinfonia de Mahler para 14 músicos e a soprano Manuela Freua; e na quarta-feira, 25, numa amostragem expressiva de seu credo artístico: a aposta no contemporâneo por meio de obras de Silvio Ferraz e Marcílio Onofre entre os brasileiros, um clássico de Stockhausen (Klavierstück) e Arpège do italiano Franco Donatoni.

Esta década e meia é o resultado da bendita teimosia do percussionista e regente Ricardo Bologna com músicos que comungam a paixão pelo novo. Eles não desfrutam de ensaios regulares, porque são independentes, ao contrário da Camerata Aberta, que entre 2010 e 2012 construiu uma fulgurante trajetória e foi extinta numa estúpida canetada oficial. É formidável que o Percorso tenha sobrevivido este tempo todo. Nas orquestras europeias e norte-americanas, é comum que grupos de músicos a elas pertencentes criem e realizem pequenas temporadas anuais de concertos dedicados à música do nosso tempo. Aqui, ainda impera a tenacidade dos que tocam música contemporânea porque têm a curiosidade saudável pelos sons de hoje. Sem músicos como Bologna, Cássia Carrascoza, Luís Afonso Montanha, Lidia Bazarian, Horácio Gouveia e um punhado de outros abnegados, os jovens compositores ficariam sem espaço algum para mostrar suas criações.

Foram necessários cinco ensaios para a quarta de Mahler. Pouco, porque o arranjo do pianista e regente alemão Klaus Simon, de 2007, transforma cada músico num solista. E, como bem acentuou Bologna ao final do concerto, este arranjo é superior ao de Erwin Stein feito nos anos 1920 em Viena para a Sociedade de Execuções Musicais Privadas de Arnold Schoenberg, porque ao incluir uma trompa reproduz em microcosmo os sopros do original. E trompas, sabemos, são essenciais em tudo que Mahler escreveu. Mas um detalhe importante tornou suficientes os cinco ensaios: nove dos músicos são seus parceiros de Osesp. São eles: Camila Yasuda (violino), Peter Pas (viola), Douglas Kier (violoncelo), Pedro Gadelha (contrabaixo), Peter Apps (oboé), Giuliano Rosas (clarinete), Francisco Formiga (fagote), Nikolay Genov (trompa) e Eduardo Gianesella (percussão). Além da convivência diária na orquestra, eles têm a obra nos dedos.

Se no primeiro movimento sentiram-se hesitações e insegurança mínimas, do segundo em diante a execução elevou-se e se fixou num patamar muito bom. O Adagio soou na medida certa. Transparência absoluta, músicos mantendo uma tensão dificílima de se conseguir. Tudo coroado no lied final “A vida celeste”, com o timbre límpido de Manuela Freua fazendo maravilhas nos agudos. 

Cotação: ótimo.

 

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