Kiko Ferrite
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Análise: ‘Paixão Segundo São João’, de Bach, à brasileira

Luis Otávio Santos comanda músicos na Sala São Paulo na recriação da radical obra símbolo do compositor

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

29 Março 2018 | 19h15

A Paixão Segundo São Mateus transformou-se, desde a célebre execução capitaneada por Mendelssohn em Berlim, em 1829, na obra símbolo da grandeza da música de Johann Sebastian Bach. Mas, escreve convicto John Eliot Gardiner em seu livro Música no Castelo do Céu, “a São João é a mais radical das paixões. Produz um impacto dramático mais poderoso do que qualquer outra”.

Essa certeza de Gardiner, um emérito intérprete de Bach, segue o juízo de Robert Schumann, que a regeu em 1851 em Düsseldorf: “É mais concisa, mais poderosa, mais poética”. Tudo isso se confirmou na última terça-feira, 27, na Sala São Paulo. Pela primeira vez, o público paulistano teve a chance de assisti-la no momento liturgicamente correto, ou seja, na Semana Santa. Na Leipzig de Bach, a São João era gesto inovador em 1724, quando foi apresentada pela primeira vez na Sexta-Feira Santa, na Igreja de São Nicolau.

Bach a espelha na dualidade de ideias de São João em sua narrativa, contrapondo luz/sombra, bem/mal, carne/espírito, verdade/mentira (Gardiner). É claro o choque entre a brevíssima abertura instrumental, carregada de “pathos” dramático e escura, pintando com dissonâncias ásperas os funestos acontecimentos que acometerão o Cristo, e o luminoso coral louvando “nosso Soberano, cuja glória/ por todas as terras é majestosa!”. Bem e mal convivem no coro que conclui com os versos: “Mesmo na maior humilhação/ serás glorificado!”, mas pairando sobre uma escrita instrumental agressiva. 

Essa estrutura perpassa a Paixão inteira – e, se nos bancos da Igreja de São Nicolau os fiéis se escandalizaram com sua “cara” de ópera, atualmente, como se comprovou na Sala São Paulo, ela é capaz de manter olhos e ouvidos magnetizados por mais de duas horas numa música intensa, que alterna recitativos, árias e ariosos com coros magníficos e duas ótimas atuações: o tenor Rodrigo del Pozo como evangelista; e o barítono Marcelo Coutinho como Jesus. Além, é claro, do talento de Luis Otávio Santos, comandando músicos na difícil tarefa de tocar com correção (e afinação digna) as réplicas dos instáveis instrumentos de época. A nota destoante foi o inseguro contratenor Pedro Couri Neto, várias vezes coberto pelos músicos.

Os efetivos instrumental (20) e vocal (12, com os solistas integrando o coro) são semelhantes ao número de músicos e cantores de que Bach dispunha. Isso concedeu uma leveza excepcional à obra – e acentuou seu agudo senso dramático.

O resultado final foi animador. Não só se integra uma obra sacra ao calendário litúrgico numa sala de concertos, mas em performance com músicos e cantores brasileiros (graças à competência de Luis Otávio).

“Cantar é rezar duas vezes”, dizia Lutero. O Oratório de Natal de Bach, prometido para dezembro, certamente dará mais um passo na consolidação desse calendário em São Paulo.

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