Ruby Washington/NYT
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Análise: Tenor Jonas Kaufmann escolheu repertório refinado para recital em São Paulo

O tenor alemão exibiu magníficas qualidades em apresentação memorável, que teve Liszt como surpresa

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

12 de agosto de 2016 | 03h00

Em sua primeira apresentação no Brasil, o tenor alemão Jonas Kaufmann, de 47 anos, escolheu um buquê de canções em alemão, francês e italiano. Noite memorável para quem esteve quarta-feira, 10, na Sala São Paulo.

É no universo da canção que o artista mais se expõe. As decantadas qualidades do tenor mais celebrado no mundo desfilaram num repertório refinado e encantador. Os pianíssimos indizíveis em O Jovem e a Fonte, de Schubert. As longas frases delicadamente tecidas em Convite à Viagem, de Duparc. O virtuosismo da escrita vocal de Richard Strauss em Pra Que, Menina. Ou as inflexões divertidas em A Truta, em que Schubert faz o piano ondular como o movimento das águas no rio e ainda representar o peixe irrequieto.

E as cores de sua voz? Do brilhante timbre do agudo aos graves, explorando as regiões mais sombrias, Kaufmann exibiu todas as magníficas qualidades que o transformaram no tenor da hora. Indispensável e precioso o piano de Helmut Deutsch, 70 anos. Professor e ex-aluno entendem-se por telepatia, o piano não “segue” o canto; eles caminham juntos. Provocam-se e riem; comovem e brincam com a plateia, como nos extras.

Franz Liszt foi a surpresa da noite. Poucos sabem que ele escreveu mais de 80 canções. Os Três Sonetos de Petrarca, na versão para piano solo, já foram gravados centenas de vezes pelos pianistas. Mas nasceram como canções. E que canções. À riqueza previsível na parte pianística, Liszt oferece uma rara qualidade de invenção ao cantor. Ele capturou, cinco séculos depois, o espírito dos sonetos escritos pelo poeta italiano em 1327, no frenesi da paixão por Laura. Sentimentos que Liszt vivia nos idos de 1838-39, quando viajou pela Itália com sua amada Marie d’Agoult, a condessa que abandonou tudo pelo diabólico virtuose do teclado que enfeitiçava o público europeu.

Liszt dedicou-as ao tenor Giovanni Rubini (1794-1854), com quem fez uma turnê em que interpretaram os sonetos de Petrarca. Rubini tinha a voz ágil, sobretudo nos extremos agudos, passando da voz de peito para a de cabeça sem recorrer ao falseto – era um autêntico tenore di grazia..., apesar de ser um tenor dramático, Jonas Kaufmann sente-se à vontade para invadir com graça e imenso talento o reino dos tenores líricos. Mas Jonas também excede nos graves – estes são seus diferenciais. No segundo soneto, Pace non trovo, por exemplo, o amor que dá vontade de gritar se combina com o noturno diáfano terminando com as quase imperceptíveis palavras “amo” e “Laura”. Um triunfo de Kaufmann e Deutsch, capazes de materializar a genialidade do Liszt autor de canções injustamente esquecidas. Nos extras, o brilho em Recondita armonia da Tosca e o cumprimento ao Brasil em Azulão, de Jayme Ovalle e Manuel Bandeira.

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