Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Análise: Num mundo ideal, não precisaríamos de um festival só com mulheres no line-up

Estamos em 2017 e eu cresci numa família de homens achando que parecer homem era elogio

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2017 | 04h00

Num mundo ideal, não precisaria de nada disso. Mas o mundo ideal ainda está em construção e um festival só de mulheres é parte de um processo para que isso seja atingido.

 

Confesso que, quando me chamaram para escrever um texto sobre um festival só com mulheres, tive diversas sensações, pois tem um lado que gostaria que a curadoria estivesse acima da questão do gênero, um festival com homens e mulheres, tudo junto e misturado, pautado pela música. Mas, levando em consideração que o meio musical é um meio predominantemente masculino, os festivais têm bandas com mais homens, os jornalistas musicais são na maioria homens, os produtores musicais, os roadies das bandas, os técnicos de som, os compositores, então é importante, sim, virar mais o holofote para as mulheres e trazer à tona essas questões. E aí um festival feito por mulheres tem uma enorme importância política.

Um dia, acompanhei uma técnica de som chegando no seu trabalho e os técnicos do teatro agiam como se ela não entendesse do que estava falando (acho que todas mulheres já passaram por isso). Eu, jornalista musical, sempre que chego em algum festival para cobertura com meus colegas, percebo que estou tentando convencê-los de que sou capaz no meu trabalho. Me sinto como se tivesse que provar algo a mais, como se começasse perdendo na relação. E demorei a perceber que fazia isso. Demorei muito.

Esse texto foi escrito depois de uma consulta com duas mulheres que eu admiro e gosto muito. Uma é poeta, Maria Giulia Pinheiro. Outra é cantora, Karina Buhr. Pois nós estamos em 2017 e eu cresci numa família de homens achando que parecer homem era elogio; então, ainda tenho medo do meu próprio machismo.

 

Se estava na dúvida, agora não tenho mais. Um festival de mulheres é importante. Um festival feito por elas e para todos é muito importante. Mas fundamental mesmo é que todos os festivais entendam isso e pensem na hora da curadoria. 

Estamos fazendo isso hoje para que isso não precise mais ser feito naquele tal mundo ideal, sabe? 

* É APRESENTADORA DA RÁDIO ELDORADO E TV CULTURA COLUNISTA DO 'CADERNO 2'

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