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Análise: Músico ensinou que o popular pode ter alto nível de excelência

Uma persona pop, que usou de todos os subterfúgios dos artistas de massa, porém com rara habilidade técnica em música

Ed Motta, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2016 | 20h29

O primeiro contato que tive com a música de Prince foi em 1982 com o tema 1999, que tocou nas rádios brasileiras, antes do grande hit de dois anos depois, Purple Rain. Meu foco nesse período era o rock e, ao assistir Woodstock numa velha fita de videocassete, Jimi Hendrix esteticamente tinha algo que Prince propunha, mas pelo prisma da música, Sly & The Family Stone, influência citada por Prince a vida inteira, era a fonte cristalina daquele artista que me influenciaria tanto ao longo de minha carreira.

Prince Rogers Nelson começou cedo como líder prodígio da banda Grand Central, em sua cidade natal Minneapolis. Os preceitos multirraciais de Sly Stone aparecem também no jovem Prince, que se inspira na banda de rock Grand Funk para nominar seu Grand Central, que contava como baterista Morris Day, seu parceiro de muitos anos. Nessa época, grava também com a banda The Lewis Connection, que, por muitos anos, foi um disco raríssimo, muito procurado; hoje existe uma reedição em vinil e CD.

O disco de estreia, For You, em 1978, é o cartão de visitas de um gênio. Ele aparece tocando absolutamente todos os instrumentos, e a forma como executa cada um deles tem o cacoete legítimo de um grande baterista, de ótimo pianista, um “guitar hero” e um cantor raro, de amplo alcance de timbres e texturas.

Uma persona pop, que usou de todos os subterfúgios dos artistas de massa, porém com rara habilidade técnica em música. Ele conseguia fazer brilhantemente um tema simulando a tão celebrada ingenuidade do pop, e mergulhar na parte funda da piscina, arranjos, harmonias intrincadas, tendo na sua lista de admiradores Miles Davis, com quem tinha projeto de gravar junto.

A trilogia no final dos anos 80, Sign “O” The Times, o descartado pela gravadora The Black Album e Lovesexy são o ponto alto da arte de Prince. Ele estava conectando as raízes de James Brown e Jackie Wilson, com suas influências mais explícitas, Sly Stone, Graham Central Station, as produções de George Clinton, com o pop da época, e o hip-hop. Sonicamente esses discos apresentam algo importante, os timbres eram nada usuais, uma densidade inesperada para um ícone pop que lotava estádios. Ele se arriscava artisticamente, e conseguia se comunicar com uma audiência imensa.

De sua produção mais recente, o que me chamou atenção foi o tema She Spoke 2 Me, composto para trilha de Girl 6, filme de Spike Lee. É uma aula de como fazer um arranjo dissonante para metais, em contraste com uma base soul/funk.

Prince deixa uma lição pouco honrada nos dias de hoje, que música popular pode ter alto nível de excelência.

ED MOTTA É CANTOR E COMPOSITOR

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