REUTERS/Robert Galbraith
REUTERS/Robert Galbraith

Análise: Michael Jackson preferia ter tido um pai a ser Michael Jackson

Os traumas que Joe Jackson deixou no filho ao torturá-lo desde os cinco anos para que se tornasse um astro ao lado do The Jackson Five colocaram Michael em um calabouço mal assombrado até o fim da vida

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2018 | 17h02

As biografias de Michael Jackson podem discordar em pontos obscuros, como a relação com os filhos e sua vida de Peter Pan na mansão Neverland, perto de Los Angeles, mas todas dançam o mesmo passo quando abrem parágrafos para Joseph Jackson: antes de qualquer atributo profissional, ele era um monstro. Apenas uma das passagens da infância do pequeno Michael nos preparativos daquele raiar de 1964, ano em que faria seis anos de idade, ainda no tempo dos Jackson Brothers, anterior ao The Jackson Five: Michael entra em casa e não vê o pai escondido atrás da porta. É surrado por trás, cai e apanha mais, mesmo caído e sem saber o motivo. Ele pergunta ao pai o que o levou a ser atacado e apenas ouve: “Você ainda não fez nada, mas vai fazer.” Este era Joe Jackson.

As torturas não eram apenas físicas. Joe, por estratégia, raiva ou vingança, se tornou um especialista em triturar o ego do filho antes que ele nascesse. Os xingamentos inspirados na largura de seu nariz eram agressivos e fariam Michael buscar pelo afinamento de seu perfil por toda a vida. Até que ficasse claro para o menino de cinco anos de que não havia hora de brincar, mas apenas ensaiar para o grande dia prometido para os Jacksons, há relatos de Michael apanhando de chicote e pedaços de madeira. Este era Joe Jackson.

Joseph Jackson usava o futuro a seu favor. Afinal, gostando ou não, sua estratégia – ele não reconhecia os episódios relativos à pancadaria – havia dado certo. Ao todo, Michael, o pequeno mais notável da história da música pop, que havia começado ao lado dos irmãos Jackie, Tito, Jermaine e dois vizinhos, Milford Hite na bateria e Reynaud Jones nos teclados (mais tarde entrariam Marlon e Randy), venderia, apenas com o Jackson 5, 113 milhões de discos no mundo. E sem aparecer no programa do apresentador norte-americano Ed Sullivan, completamente inebriado pelo garoto que acabara de conhecer, com algum hematoma que justificasse acusações de agressão doméstica.

A habilidade do pai com os negócios era reconhecida por Michael Jackson na mesma intensidade com a qual o rei do pop se sentiria eternamente órfão. “Ele era um assessor brilhante, mas o que eu realmente queria era um pai.” Em 2012, Katherine, a mãe de Michael, se separou do marido depois de um longo casamento alegando que Joe se tratava de um “mulherengo” interessado apenas na fortuna deixada pelo filho. Fazia sentido. Jackson morreu com um testamento pronto, ignorando por completo o nome de Joe Jackson como herdeiro. “Só de pensar nele, eu sinto ânsia de vômito”, dizia Michael.

Quando fez 87 anos, Joe quis comemorar a data no Brasil com estilo. O filho já estava morto havia seis anos, mas a máquina que ele havia acionado com mãos de ferro não podia parar. Colocou US$ 200 mil na festa e contratou Ivete Sangalo e Claudia Leitte, mas pouco antes de ajustar o chapéu e borrifar seu perfume para a grande noite em sua Neverland brasileira, passou mal e teve de ser internado no Hospital Albert Einstein. Era AVC, complicado por três paradas cardíacas. Joe começava a sucumbir ao tempo sem conseguir entrar para a história com a relevância que desejava.

As justificativas do pai que precisa cobrar dedicação do filho para que ele não deforme um projeto iniciado na infância não têm paralelos aparentes nem na terra do nunca da qual surgiu Michael Jackson. Vernon Presley, pai de Elvis, sujou a ficha apenas uma vez. Quando o filho tinha três anos, ele passou oito meses encarcerado. Motivo: falsificação de cheques. Jim McCartney, pai de Paul, trabalhou duro vendendo algodão e tocando nas horas vagas. Ao sentir que o filho poderia gostar de música, foi premonitório trazendo um instrumento para casa. Só errou feio na espécie: trompete. Stanley Dwight, pai de Elton John, foi o Joe Jackson ao contrário. Seu descaso era tanto com o pequeno Reginald que ele morreu sem jamais ter assistido a um concerto do maior pianista da música pop de todos os tempos. “Meu pai nunca veio me ver tocar. Nunca. Não sei se ele era homofóbico”, lamentou Elton. “Era um homem duro e sem emoções. Não dava importância, ficava desapontado. Eu só queria que ele reconhecesse o que eu fiz, mas isso nunca aconteceu.”

Quando sentiu a morte finalmente batendo à porta do quarto do hospital onde aguardava há uma semana o câncer iniciado no pâncreas terminar de fazer seu trabalho, Joe Jackson, 89 anos, proibiu os filhos e a ex-mulher de entrarem naquele ambiente. Por quatro dias, a família argumentou com os médicos em vão até que, finalmente, foram liberados para se despedirem de Jackson pai. Suas últimas palavras pareciam profundas: “Eu vi mais pôr do sol do que me resta para ver. O sol nasce quando chega a hora e, se você gosta ou não, o sol se põe quando chega a hora”. Paris Jackson, herdeira de Michael, ficou indignada. “Não sei quem estava usando a conta do Twitter do meu avô. O post é lindo, mas não foi ele quem escreveu.” Este não poderia ser mesmo Joseph Jackson.

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