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Análise: Menescal é o 007 da música brasileira

João Marcello Bôscoli escreve sobre o principal parceiro musical de seu pai, Ronaldo Bôscoli, e escudeiro musical de sua mãe, Elis Regina: "Ele talvez tenha sido a primeira pessoa a me mostrar a beleza e verdade invencíveis dos bastidores – hoje meu habitat natural"

João Marcello Bôscoli, ESPECIAL PARA O ESTADO

21 de setembro de 2017 | 07h00

A minha primeira lembrança do Menescal foi em casa com a Elis. Três coisas chamaram atenção: a primeira era o fato do Menesca representar o cão, o diabo – a gravadora no caso. A segunda era ele ser parceiro do meu pai, Ronaldo Bôscoli – à época uma espécie de diabo aos olhos da minha mãe. E a terceira e mais intrigante: Elis realmente gostava dele. Mesmo. Mais do que gostar; ela ouvia o Menescal (?!?). Uau. Nunca tinha visto isso antes. 

Sua fala amistosa, o aroma da sua colônia, a força contida e educada em suas colocações, o sol em seu violão, o sotaque carioca e o corte de camisa perfeitos. Percebi também em seus olhos claros, oceano íntimo, haver um pequeno tique, um leve piscar em mono. Diante de tanta calma, mesmo ainda menino, achei impreciso chamar aquele gesto involuntário de tique “nervoso”. 

Aquele homem era tudo, menos nervoso. Exímio mergulhador, descomprimia as tensões com sorrisos e tiradas sagazes, bem humoradas. E com suas centenas de viagens internacionais para divulgar a música brasileira, compostas por centenas de horas de espera e atrasos em conexões, o impávido Roberto Menescal é dos nossos maiores embaixadores, um Instituto Rio Branco tocando violão e contando histórias.

Ele talvez tenha sido a primeira pessoa a me mostrar a beleza e verdade invencíveis dos bastidores – hoje meu habitat natural. E também, apenas por ser como é, me ensinou a amar os amigos exatamente como eles são. Amigos têm características, não defeitos. Amigos são nossa mátria.

Menescal é o meu 007 à serviço da música. Com sua turma de vagabundos geniais, um MI-6 poético-etílico, desafiou as leis da física e do nefasto machismo vigente através de duas proezas: trazer o sol de volta para a música brasileira e tirar a mulher do papel de vilã, traidora ou alpinista social nas temáticas musicais brasileiras à época.

Bossa Nova é o movimento do sim – acima de tudo para e pela mulher. A favor do ser humano.

Conhecendo-o ali, diante da Elis, vi que tudo era verdade, estilo de vida, jeito de ser.

Voltando ao encontro profissional onde o conheci... trabalhinho difícil, convenhamos...

Conhecendo Elis como poucos, tendo atravessado fases, humores e mares (Menescal tocou com Elis ao redor do mundo), ter coragem de ir até a toca do onça para “aprovar” seu novo disco? Jura? 

Haja clonazepam. Preferiria fugir de um urso recém desperto ou algo similar.

Certa vez ele me contou ter um sangramento nasal esporádico (geralmente antes de receber a Elis e poucos outros artistas em reuniões na gravadora.)

Ao procurar um médico ouviu ser melhor não cauterizar a veia, afinal, ela era um “alarme” da sua pressão, da sua tensão – causadas em parte pela Elis, claro.

Por outro lado, trabalho fácil esse do Menescal.

Ir até a casa de uma das melhores cantoras do mundo, ouvir os melhores músicos (Hélio Delmiro/guitarra, Luisão Maia/baixo, Paulo Braga/bateria, Cesar Camargo “o pão” Mariano/teclados e arranjos) e as melhores canções dos melhores compositores da época.

Era difícil ficar ruim. Aliás, nunca ficou. Tal qual com Pelé e Garrincha, o Brasil nunca perdeu com Elis e Menescal jogando juntos. E esse placar nunca mudará.

É tempo de despertar.

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