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Análise: A massa, que pena, não comeu os finos biscoitos do príncipe

Walter Franco era, na segunda metade dos 70, uma espécie de príncipe capaz de conduzir a MPB para um lindo (e utópico) lugar

Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2019 | 10h25

No ano da graça de 1975, Walter Franco criou uma obra-prima: Revolver (álbum relançado em vinil pela Polysom na sua série de clássicos da MPB). Experimental, sofisticado, vanguardista e palatável, o disco empurrou o autor diretamente do circuito alternativo para o pelotão de frente da produção nacional, puxado naquela altura por Caetano Veloso e Gilberto Gil, “repatriados” após o duro exílio.

Num contexto de saturação da canção de protesto que marcara a metade inicial daquela década, Walter Franco era, na segunda metade dos 70, uma espécie de príncipe capaz de conduzir a MPB para um lindo (e utópico) lugar, livre da panfletagem rasteira e sem ceder um centímetro ao apelo comercial das rádios, TVs e gravadoras. A foto do cantor e compositor na capa de Revolver é emblemática: cabelos compridos, vestido de terno e sapatos brancos, caminhando altivamente, tendo ao fundo as luzes da cidade. De forte inspiração concretista, o álbum tem clássicos como Feito Gente, Eternamente, Cachorro Babucho e a canção-título, Revolver.

Seu impacto foi grande no meio musical, basta olharmos a produção de Caetano e Gil na parte final daquela década: mais flertes com a poesia concreta, mais experimentalismos formais e menos blablablá retórico. Porém, o eldorado prometido pela linha evolutiva da MPB, que ensinaria as massas a comer finos biscoitos, nunca passou de delírio. O jabaculê imperou nas rádios, os refrões fáceis e malandros continuaram seduzindo as gravadoras e Chacrinha balançou sua pança nos anos seguintes para o rock nacional, para os sertanejos, etc.

Walter Franco, como muitos sobreviventes daquele período de decepções, se virou como deu. Fez bons discos depois de Revolver (Respire Fundo e Vela Aberta), mas tomou o inevitável (e injusto) carimbo de “maldito”. Ou seja, caiu, de novo, no circuito alternativo. Em 2017, o escritor Joca Reiners Terron produziu extenso perfil de Walter Franco para a revista Zumbido (selo Sesc), síntese lírica de um crepúsculo belo e radical: “No começo de abril de 2017, conversei longamente com o cantor Walter Franco pelo telefone. Precisei reunir coragem antes de ligar. Mas, ao ouvir aquela voz cálida de radialista (coisa que ele realmente foi em 1965 na Rádio Marconi, antes de gravar seu primeiro compacto, Tema do Hospital, trilha da novela Hospital, transmitida pela TV Tupi em 1971), de imediato senti meu coração se tranquilizar”. Tudo, afinal, é questão de manter a mente quieta. Mais uma vela aberta que, tristemente, se afasta pelo mar de saudades em tempos de perdas.

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